Violência no Recife é notícia em mais de 30 jornais mundo afora


Do Blog PE Body Count

Por que contar homicídios? Na próxima quinta-feira completaremos um ano respondendo essa pergunta. Contamos os homicídios porque ninguém mais conta. Ou melhor, ninguém conta da maneira que achamos que deve ser. Apesar de muitas vezes nos apoiarmos nas estatísticas para avaliar a nossa realidade, contar um pouco da história de cada pessoa assassinada em Pernambuco é prestar uma mínima homenagem para aqueles com quem as autoridades e a própria sociedade não se importam.

Uma prova disso é que internacionalmente, nosso site repercute talvez até mais do que no nosso próprio quintal. Nunca vamos nos acostumar com a apatia sobre o assunto violência que caracteriza nosso Estado. Não a discussão de mesa de bar sobre o assalto da esquina, mas o debate produtivo sobre o que cada um de nós está fazendo a respeito.

Desde a última sexta-feira, os leitores do Miami Herald, do Los Angeles Times, do Chicago Tribune e de dezenas de jornais dos Estados Unidos e de outros países, estão podendo constatar um pouco do dia-a-dia na capital mais violenta do Brasil. Tenho certeza que os leitores desses periódicos estão se chocando com o que vêem.

Talvez porque não caiba na cabeça deles como não é uma calamidade pública em menos de quatro meses, 1.500 pessoas terem sido assassinadas em Pernambuco.

Talvez porque para muitos de nós pernambucanos, essa matança não choque porque consideramos as vítimas menos merecedoras da vida.

Segue a tradução da matéria feita pelo repórter Michael Astor, da Associated Press:

RECIFE, Brasil.

Com o olhar perdido no vazio, Inês Maria da Silva descreve, em frente ao seu barraco, como perdeu seus cincos filhos para a violência que coloca o Recife como a cidade mais violenta do Brasil.

Seu primeiro filho morreu há 15 anos em uma briga por uma garota. Outro por tentar impedir que um tarado fosse morto em frente à sua casa. O terceiro foi esfaqueado em uma discussão com um amigo. O quarto foi morto a tiros confundido com um ladrão. O que restava, caiu abatido por uma bala perdida enquanto brincava Carnaval no ano passado.

“Só quero que me digam: porque ninguém é punido?”, afirma a viúva de 68 anos, que agora cuida de seis netos e três filhas desempregadas e recolhe lata, garrafas e lixo para alimentar seus porcos, na Favela do Coque.

“Tem gente que mata só por diversão”, explicou da Silva. Dois dos homens que mataram meus filhos são meu vizinhos. Se eu tivesse para onde ir, já teria partido há muito tempo”

Esta cidade litorânea, preferida dos turistas europeus, recebe muito mais atenção pelos ataques de tubarão que mataram 18 pessoas desde 1992 que pelos homicídios, pelo menos 2.617 na região metropolitana, no ano passado. Ainda que se advirtam os turistas para que não levem objetos de valor para as praias, da mesma forma que na maioria das cidades brasileiras, pouco se diz sobre a taxa de homicídios, principalmente porque a violência se restringe às zonas pobres.

As violentas disputas entre traficantes no Rio de Janeiro ganham as manchetes internacionais. Enquanto que esta cidade, de um milhão e meio de habitantes, tem uma taxa de homicídios de 90,9 para cada 100 mil habitantes, mas do que o dobro do Rio, segundo o Mapa da Violência da Rede Tecnológica da América Latina.

Atualmente, um grupo de repórteres policiais locais trabalha para mostrar o custo humano dessa violência.

“Durante os últimos dez anos estamos escrevendo a mesma história, o que muda é o nome das vítimas, dos assassinos e das autoridades que dão a desculpa do momento”, explica João Valadares. “Isso só vai mudar quando toda a sociedade se mobilizar contra essa situação, não apenas quando a violência bater na sua porta e sim quando todos se conscientizarem que são seres humanos sendo mortos”.

Valadares e três colegas lançaram o site www.pebodycount.com.br com números atualizados de assassinatos no estado de Pernambuco. No dia 21 de abril, o contador alcançava 1.403 casos e seguia subindo. Os jornalistas estão associados a outro site que utilizada a tecnologia do Google para marcar o local de cada morte com uma bandeira vermelha.

O grupo também usou tinta vermelha para marcar os locais de assassinatos no Recife durante um mês. No próximo dia 30 de abril, Eles planejam inaugurar um contador eletrônico em uma das vias mais movimentadas do Recife, a Rua Joaquim nabuco, que irá somando o número de vítimas, assim como o site.

“O que ocorre aqui é uma ‘faxina’ social”, afirma Eduardo Machado, um dos fundadores do grupo. “A maioria das vítimas têm o mesmo perfil: jovens negros e pobres de 15 a 30 anos, que vivem na periferia das cidades pernambucanas e são executados a tiros de revólver calibre 38″.

Mais de 40% dos assassinatos são cometidos por esquadrões da morte, grupos clandestinos de policiais em dias de folga ou aposentados que se dedicam a executar elementos indesejáveis, segundo José Luiz Ratton, um sociólogo que assessora o governador em questões de violência.

Entre outras motivações está o machismo rural: uma cultura de honra e execuções por vingança, diz Ratton.

“No Rio de Janeiro, o problema é o crime organizado”, explica. “Aqui o problema é o crime desorganizado”

Ratton coordenou um plano governamental para combater a violência, mas até agora pouco se fez.

Os crimes só constrangem as autoridades nas raras ocasiões em que morre gente de classe alta ou média alta. No entanto, a carnificina de todas as noites alimenta os três programas policiais televisivos, cujos apresentadores competem para narrar os detalhes com uma mistura de grandiloqüência indignada e regozijo sangrento.

Os repórteres e cinegrafistas da TV não vão aos locais de crime antes da polícia por temer serem atacados. Os moradores das favelas, por sua vez, não falam muito com pessoas de fora.

“Aqui, quem fala demais morre”, explica um homem que se identificou apenas pelo apelido de “Biscoito”.

Essa “Lei do silêncio” é uma realidade frustrante para a investigadora de polícia Cleonice Bezerra de Araújo, uma veterana com 24 anos de serviço que lida com um número de assassinatos que vai de 3 a 11 por noite, à frente da Força-Tarefa de Homicídios.

“Às vezes se quem morre é uma criança ou uma mulher, uma mãe, ainda me comove. No entanto, uma hora você se acostuma”, explica depois de meia hora tentando descobrir, infrutiferamente, porque Aldivam Joaquim dos Santos, 35, foi assassinado na rua.

Um grupo de pessoas observa o corpo e várias crianças andando de bicicleta precisam evitar o corpo estendido no chão. No entanto, até mesmo a viúva diz não ter visto nada.

Uma hora antes, Araújo investigava a morte de um homem assassinado à facadas em um barraco da periferia. Os vizinhos disseram não conhecer a vítima, nem quantas pessoas moravam com ela.

A única pista foi um boato: o homem havia sido preso dias antes por roubar algumas frutas, o que teria chamado a atenção dos matadores locais. Como em 90% dos casos no Recife, Araújo diz a investigação do homicídio não passará do boletim de ocorrência. Os culpados provavelmente jamais serão presos.

O assessor de comunicação da Secretaria de Defesa Social, Joaquim Neto, admite que os números de homicídios são altos, mas assegura que este ano o índice caiu 6% e atribui isso ao desmantelamento de 13 esquadrões da morte.

Ele também argumenta que a taxa de homicídios no Recife é alta em comparação com outras cidades porque a SDS contabiliza os dados de maneira mais próxima da realidade. “Outros estados não contabilizam mortes causadas por policiais como assassinatos ou consideram uma chacina com sete vítimas como apenas um caso de morte”, diz Neto. “Nós não fazemos isso”.

Essa informação deve consolar Inês Maria da Silva.

“A polícia não faz nada a respeito da violência – eles jogam as pessoas na cadeia e quando elas saem não têm como arrumar emprego, então elas roubam”, ela diz, enquanto olha seus vizinhos brincando com os filhos na rua de terra batida.

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