Artigo: Família da Laje


Telmo Domingues *

Todos os sábados eu tomo o metrô na Estação Prazeres, rumo à Imbiribeira, e no trajeto, vou me acostumando com a paisagem nem toda bucólica em meio às passagens pelas últimas instâncias de mangue que resistem às especulações imobiliárias do supervalorizado “quintal de Boa Viagem”, que é a faixa que se estende por trás da Avenida Domingos Ferreira até a Mascarenhas de Morais.

Uma proliferação de novas construções que é vista mais intensamente no trecho entre as estações de Prazeres e Porta Larga: centenas de novos “terraços” estão sendo construídos em cima das casas de tijolos que sequer receberam o acabamento de alvenaria, como se a obra fosse estendida até o novo “pavimento” da residência. Algumas casas mais antigas, pintadas ou assentadas com cerâmica também estão no embalo da febre “lajeana”, ou seja, o adendo de um novo segmento, justapostamente colocado no telhado que consiste basicamente de um vão, que nos domingos servirá como pista de dança, ou a exposição de cadeiras em torno de uma mesa cheia de petiscos e um aparelho de som tocando da lambada ao ‘hip-hop’; do samba ao forró estilizado, do pagode ao ‘tecno-brega’; uma lareira de tijolos, contiguamente, a chaminé do mesmo “style”, ou quando não, uma churrasqueira ‘postiça’, daquelas que se leva a todo lugar e depois de uma boa ‘comida de carne’, propaga-se o axioma: lavou, tá limpo! E pronta pra ser usada de novo! Quem tem mais disponibilidade financeira, compra uma “George Foreman”, que são aquelas movidas a gás ou eletricidade, e depois de se saborear com um baita churrasco no fim de semana arrota-se: “hei meu irmão, é nós na laje e o gringo cozinhando pra nós, tá ligado?” – essa vida é o maior pipoco doido!

Mas, quando chegam os dias chamados ‘úteis’, o local, quase sempre vazio, acomoda apenas um varal cheio de roupas; algumas dos próprios moradores, outras, mais chiques, dos clientes de algumas possíveis lavadeiras residentes nas ‘sub-lajes’ que “lavam pra fora”, ou num trocadilho impensado, lavam roupas de outras pessoas e as estendem lá fora…

Mas o “lajeado” também pode servir para a exposição corpórea das habitantes do lugar e ‘avizinhadas’, que sobem numa manhã de sábado, feriado ou domingo, na busca de “um lugar ao sol”; ou literalmente, procurando um filete de luz do astro-rei que possa lhe bronzear as partes do corpo, expostas ou não, aos filamentos cancerígenos da ardente estrela, ou aos olhares vigilantes da rapaziada de plantão, e por que não dizer, da “marmanjada” dos arredores?

O que importa é saber que como uma notícia que se alastra, oito em cada dez casas destes subúrbios vem soerguendo esses espaços, para a diversão de muitos, na tentativa de fazer dos domingos, mais domingos, com menos “gugus” e “faustões” que são o verdadeiro “ópio odiento” que singrava nas veias de Karl Marx e hoje se aquartela nos nossos subconscientes.

Telmo Domingues é Assessor Técnico da Controladoria Geral da Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes. Para contatos, enviar email para ebds33@yahoo.com.br

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