ARTIGO: De como parar o tempo e outras brincadeiras


Por FREDERICO VALENÇA*

Tantas coisas que deixamos de dizer! Quantas, ainda, por fazer?

E o tempo, que passa à revelia dos nossos sonhos, projetos e aspirações, uiva em ventos cortantes, daqueles que dão a sensação de corte profundo na alma, de forma tirânica e impiedosa, nos diz em sopro ao pé do ouvido: Quimera! Pura Fantasia! Acorda! Mar de procela que é a vida… Penso. As veias azuis do meu avô, começam a se reproduzir nas minhas mãos e face. Sulcos…

Não aceito. Protesto. Íntima e sofregamente finco-pé, tal qual criança birrenta; tudo aos olhos do espelho. Inevitável. Será? Caem-me lágrimas distintas, muito distintas (parece até que o gosto de sal que as distingue, têm, agora, um pouco de fel) daquelas que molhavam meu rosto após o arrancar do “dente de leite”, em cujo espaço sempre nascia o definitivo. Minha mãe assim o dizia. E a mágica nunca falhava.

Ah, se eu soubesse como é angustiante o definitivo! O fardo do dia e das horas: lavo o corpo. Visto-o. Só às crianças é permitida a nudez. Só aos olhos dos adultos, há maldade. Por óbvio (admitindo que a passagem relatada em Gênesis, não passa de alegoria, como grande parte do Velho Testamento) até que Eva comesse a maçã, ela como Adão, tinha os olhos infantis. A eterna – façamos com que seja terna – opiedade da maçã…

Enfrento o trânsito. Transponho a porta do local de trabalho. Antes, um olhar lá de fora, do mundo que tenho, por sobrevivência e “dever de cidadão”, que deixar para trás. Mas algo de mim ali ficou e não sei se me cuidarão direito. Abro as janelas da repartição: Luz de sol. Homens, mulheres, crianças, o verde das árvores que foram poupadas da impiedade humana. Sinto cheiro de vida. Driblo o caminhar torturante das horas. Deixo-me renascer: De súbito toda a paisagem muda, todas as faces estão risonhas e coradas. Não, não digam para ninguém, mas é que restava um pouco do pirlimpimpim que Lobato me emprestou, não sem antes me advertir: “use aos pouquinhos, mais tarde você compreenderá”. Consegui! Alimentei minha alma de alegria e paz, pelo menos no curto espaço de tempo que dura a magia. Onde minha calça comprida? (meu Deus! O chefe não vai me perdoar!). Que nada! Virou uma bermuda e “aquela coisa” que surgiu de não sei de onde na minha cabeça, é o meu boné com o qual jogava bolas de gude.

Acreditem: hoje brinquei de tempo, estirei minha língua para ele. Impus, com a coragem de Peter Pan, meu lado ainda não levado. Abri meu “leque moleque”. Quem quiser brincar, aperte a minha mão. Vou contar até três. Alessandra já chegou. Vamos começar logo! Em breve, mamãe chama para o jantar. Que chato! Já vou!

*FREDERICO VALENÇA é advogado e produtor artístico (fred-valenca@hotmail.com) – Jaboatão dos Guararapes/PE

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