Lembranças do Coco Sacramento


Atualmente, o referido espaço nem de longe lembra um Centro Cultural.

Enildo Luiz Gouveia*

Entre o final da década de 1980 e início dos anos 90, as tardes de domingo tinham programa obrigatório: vender amedoim, pipoca, chiclete e outros doces para o público, em sua maioria da boa idade, que frequentava num clima de paz e nostalgia, o Coco Sacramento que funcionava no espaço onde, durante o mês de junho, o coco e a ciranda de roda davam o tom da brincadeira.

Como no bairro de Pontezinha, acredito ser esta a realidade vivida na maioria dos bairros populares, há ausência de espaços de lazer e entretenimento que permitam a família e amigos se congratularem, o Coco Sacramento era um refúgio para curar esta falta.

O que deveria ser o
Centro Cultural de Pontezinha, aliás,
o único do bairro, está mais
para Casa de Festas

Mas, dizem que quando o poder público “mete a mão”, a coisa começa a feder. De repente, começaram as brigas políticas pelo espaço, cada um dizendo ter as melhores intenções em fortalecer o espaço e a cultura popular. Eis que, o “controle” passa ao poder público que, numa digna homenagem, intitula o espaço de Centro Cultural Mestre Goitá e Zezinho Varelo – autênticos mestres do coco de roda. As bondades por aí cessaram.

Atualmente, o referido espaço nem de longe lembra um Centro Cultural. Na verdade, como já denunciei neste mesmo jornal, o que deveria ser o Centro Cultural de Pontezinha, aliás, o único do bairro, está mais para Casa de Festas, uma vez que todos os finais de semana encontra-se cedido para algum aniversário que começa no sábado, termina no domingo à noite, e, via de regra, é regado à bebedeira e música de péssima qualidade. Pergunto-me: Se alguém tem dinheiro suficiente para pagar bebidas, ornamentação e comida, enfim, bancar uma festa desse tipo, não teria condições também de alugar um espaço apropriado?

O poder público deveria, e isto é compartilhado pela vizinhança, proibir este tipo de evento, pois se é pra ter alguma festividade naquele espaço, que seja para beneficiar alguma entidade representativa e não indivíduos. Que haja oficinas de arte, roda de coco e ciranda nos finais de semana, só assim, de fato, o Centro Cultural Mestre Goitá e Zezinho Varelo, antigo Coco Sacramento, cumprirá seu verdadeiro papel social, resgatando os bons tempos.

* Enildo Luiz Gouveia é professor de Geografia, poeta, compositor e amante do Coco de Roda. Contatos com o autor: chapeupjmp@bol.com.br

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7 respostas para Lembranças do Coco Sacramento

  1. JOSÉ RICARDO PAES DE ANDRADE disse:

    PARABÉNS ENILDO!! VC RETRATOU MUITO BEM O SENTIMENTO DE MUITAS PESSOAS.

  2. Enildo parabéns pelo artigo.
    Você esta quaificado para analisar este problema.
    Pois uma pessoa como eu sem muita qualificação estava pensando que proibir a livre expressão dos valores culturais de um povo retirar o único local onde este mesmo povo podia expressar seus valores culturais fosse uma nova modalidade de promover cultura.
    Se não fosse por ele (seu artigo) eu estaria pensando que é uma nova maneira de preservar e valorizar a cultura.
    Nada melhor que ler, assim pessoas como eu sem muita qualificação aprende.
    Obrigado professor!

  3. GENILSON CAETHANO disse:

    Amigo Enildo, acho-me suspeito em elogiá-lo pois sou super fã de suas multifaces culturais, mas não poderia deixar de parabenizá-lo pelo sobriedade e coirreção e, de certa forma até corajosa, em denunciar a Prefeitura do Cabo S/A por desvirtuar o fim a que se deveria destinar o Centro Cultural de Pontezinha – Mestre Goitá e Mestre Zezinho Varelo, tornando-a numa casa de eventos, em detrimento de um dos poucos espaços de lazer e resistência que a comunidade dispões, numa atitude de total desprestigio as raízes culturais de nosso município. Não quero aqui expressar romantismo, mas respeitar as raízes significa apego, amor a maneira de ser de um povo, os políticos são eleitos para defeder estas resistências culturais com toda força, quando tomam atitudes que visam destruí-las ou não as protegem, fica muito claro que não é o interesse da comunidade que está sendo defendido. Parabéns conterrânio.

  4. João de Goitá disse:

    Por inúmeras vezes fui pessoalmente a quem de direito para saber se existe projeto para o referido Centro obtive resposta positiva mais não entendo o porque deste projeto não ser posto em prática. Fico também triste porque há mais de dez anos a comunidade ficou sem o coco no dia aniversário do Cabo e no último sábado de Santana (mês de julho). Confesso que estou além desapontado também estou ficando cansado e pensando em desistir. Deixando por terra a vontade de todos que fazem o Coco de realmente fazer do CABO A TERRA DO COCO DE RODA. Não tenho mais ânimo nem vontade de continuar.

  5. Marcelo Ferreira disse:

    Boas lembranças, uma viagem no tempo… É assim que defino este artigo de Enildo.
    Infelizmente no lugar de ter apoio, incentivo e valorização para os valores e riquezas culturais, o poder público inverte a ordem das coisas e numa atitude grosseira e desrespeitosa a cultura popular, permitindo a realização de eventos pessoais e consequentemente a reprodução de músicas fortemente massificadas nos meios de comunicação, músicas essas que em nada engrandecem a nossa cultura, ao contrário, denigrem a imagem das mulheres, dos pobres e do ser humano em geral.
    Enquanto que a nossa verdadeira cultura que não tem espaço nos meios de comunicação, perde onde deveria ter que é no poder público que geralmente tem uma visão arcaica e ultrapassada vendo-a de forma sazonal.
    Viva a cultura popular, viva o mestre Goitá!
    O mestre está com Deus na eternidade…

  6. Samuel Lins disse:

    João de Goitá, sei que a sua revlota é grande, mais vocês que fazem o COCO de RODA aqui no Cabo são maiores e vão com certeza dar a volta por cima, pois, o goveno atual é passageiro e logo logo tomaram o caminho de volta para casa e o Centro Cultural Mestre Goitá, voltará ao que era para a alegria de todos, sejam fortes e lutem contra tudo e contra todos que de forma direta ou inditeta querem acabar com a cultura do nosso povo. E a você Enildo meus parabéns pela relevante contribuição no seu comentário ao COCO de RODA e ao Centro Cultural de Pontezinha, pois, um governo municipal que sua unica preocupação é iluminar beira de pista, jamais vai levar a sério as manifestação cultural do nosso povo…

  7. João de Goitá disse:

    Gostaria apenas de salientar que meu desabafo não tem cunho político. Após o afastamento do Mestre Zezinho Valério, por motivo de doença em 1996. Eu venho nesta luta juntamente com pessoas mais ligada diretamente com ao Coco de Roda, e não tem mudado muito o cenário. Para que não peguem carona em minhas palavras digo isto de coração “PORQUE NAS MINHAS VEIAS NÃO CORREM SANGUE E SIM ÁGUA DE COCO”.

    João de Goitá

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