Depressão


A cidade vive um grave momento de depressão cultural e o talento de tanta gente que escreve, pinta, interpreta, que canta, etc., morre no nascedouro por falta de ressonância

Antonino Oliveira Júnior*

Depressão: Abaixamento; enfraquecimento; abatimento (Dicionário de sinônimos e antônimos da Língua Portuguesa)

Há cerca de dois anos, falei que o Cabo de Santo Agostinho estava à beira de entrar numa depressão cultural. Fui criticado e alvo do bombardeio dos apaixonados pelo governo municipal. Calei diante das insinuações e das ironias e constituí o tempo como meu advogado. Hoje, o quadro está claro e não existem mais dúvidas e nem previsão. A cidade vive um grave momento de depressão cultural e o talento de tanta gente que escreve, pinta, interpreta, que canta, etc., morre no nascedouro por falta de ressonância. O artista cria, vai às ruas com a mente brilhando, mas, por estar numa cidade que não tem políticas públicas de cultura, perde o ânimo e desiste. Vem a frustração e o abatimento. E isto é um quadro típico de depressão.

Sem condenar os poucos que são abençoados pelo tesouro municipal, até porque são artistas e produtores com talento reconhecido, não podemos, no entanto, ficar omissos diante de uma situação em que a cultura é relegada a um “quase” abandono. O orçamento da cultura é muito pequeno, como todos os outros governos, mas, o quadro se agrava pela falta de sensibilidade e de entendimento de quem governa o município, que, em momento algum demonstrou a mínima vontade de tratar a cultura com o respeito e o cuidado que ela merece.

No Cabo de Santo Agostinho, infelizmente, ainda prevalece aquela “máxima”: “Vamos atender, porque esse pessoal é da gente”, como se artista fosse gado ou animal de estimação. Passaram-se quatro anos de letargia, anos angustiantes até para os que, uma vez integrando a máquina, não tiveram forças para formar um cenário diferente. Basta ver a Semana Cabense de Cultura, realizada a partir do esforço de alguns abnegados da Secretaria de Cultura, mas desprestigiada e esvaziada pelo próprio governo.

Na transição do primeiro para o mandato atual, esperavam-se modificações em relação ao comportamento com a cultura. Ou mudando nomes ou posturas. Ou, ainda, os dois. Mas, tudo foi mantido, como se tudo estivesse bem. E reconheço a capacidade de alguns dos servidores da Secretaria de Cultura. Mas, o problema, diferentemente do buraco, não é mais embaixo, é mais em cima.

Tenho certeza de que agora vão correr para realizar alguma coisa, com o objetivo de desmentir a análise que faço. Talvez até volte aquela coisa ultrapassada de que falo apenas “por estar fora do governo”, mas, os que lá ainda estão, lembrarão de que nos dois anos em que ocupei um cargo no atual governo, fui um crítico contumaz da inércia da Secretaria de Cultura e do pouco caso do Prefeito para com a cultura, os artistas e intelectuais do Cabo de Santo Agostinho.

É preciso repensar a cidade a partir da sua cultura. Os produtores, os artistas, os intelectuais, devem à cidade uma tomada de atitude em defesa da sua identidade cultural de forma independente, à luz da inteligência e do compromisso com a verdadeira riqueza do Cabo de Santo Agostinho. Mais do que urgente, é necessário uma reflexão acerca da situação da cultura no município, objetivando a formatação de uma política pública de cultura, evitando, assim, que vivamos numa cidade tão pobre que só tenha dinheiro.

Sem zelarmos pela manutenção de nossa identidade cultural, deixaremos de ser povo, para sermos, tão somente, um amontoado de gente. Povo sem identidade cultural é povo sem rosto, sem norte e sem rumo, que se perde na ida e na vinda. Perde a consciência e se deixa manipular.

*Antonino Oliveira Júnior é membro da Igreja Batista da Cohab e da Academia Cabense de Letras.

Anúncios

Sobre Da Redação do TP

Contatos com a Redação: (81) 3518-1755 ou jornalismo@jornaltribunapopular.com
Esse post foi publicado em Últimas Notícias e marcado , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Depressão

  1. Rosilda Frieldman disse:

    Esse rapaz é um encanto, escreve divinamente bem e sabe como ninguem juntar as palavras e dar um sentido poético aos problemas nosso de cada dia.
    Mas afirmo que somando seu talento e sua esperança numa melhor cultura para a cidade, bons frutos serão colhidos!

Os comentários estão encerrados.