Número de brasileiros mortos no México pode aumentar, diz cônsul-geral do Brasil


Agência Folha
JEFFERSON PUFF
DE SÃO PAULO

Após confirmar que há ao menos quatro brasileiros entre os mortos encontrados num rancho na cidade mexicana de San Fernando, o cônsul-geral do Brasil no México, Márcio Lage, não descarta que este número aumente uma vez que todos os cadáveres sejam identificados.

Em entrevista à Folha.com, Lage reiterou que o governo brasileiro enviará na quinta-feira pela manhã o vice-cônsul João Zaidan à região, numa aeronave disponibilizada pelo governo mexicano para os representantes diplomáticos.

O cônsul-geral disse ainda que não se pode descartar que os imigrantes mortos estivessem ligados a narcotraficantes ou se tentavam cruzar a fronteira com os Estados Unidos quando foram vítimas da chacina.

Os outros imigrantes encontrados mortos são de El Salvador, Honduras e Equador, informou o cônsul.

“Não se sabe ainda se são homens ou mulheres, se eram imigrantes ilegais, nem de que lugar do Brasil seriam”, disse Lage, acrescentando que somente após a identificação dos corpos o governo brasileiro poderá entrar em contato também com os familiares das vítimas.

“Vamos prestar toda a assistência necessária assim que mais dados forem confirmados”, afirmou.

A cidade de San Fernando, no Estado de Tamaulipas, está situada a 160 km ao sul de Browsville, no Texas (EUA), e as maiores cidades próximas são Reynosa e Monterrey.

LOS ZETAS

Mais cedo, um sobrevivente que pediu para não ser identificado confirmou à Promotoria mexicana que havia imigrantes brasileiros e equatorianos entre os mortos. Ele foi identificado como um equatoriano chamado ‘Freddy’, e está sob forte esquema de segurança, informou uma fonte da Procuradoria Geral de Tamaulipas.

A testemunha relatou que os estrangeiros foram sequestrados por um grupo criminoso quando tentavam chegar à fronteira com os Estados Unidos. Ele disse ser um imigrante ilegal vindo do Equador que teria escapado da ação.

Segundo o sobrevivente, os homens disseram pertencer ao grupo Los Zetas e resolveram assassinar os imigrantes após eles recusarem a oferta de trabalhar como matadores de aluguel para a organização criminosa. Eles teriam oferecido US$ 1.000 quinzenais.

O mesmo grupo foi responsabilizado ainda na terça-feira (24) pelo assassinato, há uma semana, de Edelmiro Cavazos, prefeito da cidade mexicana de Santiago, no Estado de Nuevo León, revelaram autoridades locais.

O prefeito advertiu alguns policiais municipais por maltratar ciclistas de montanha e impôs-lhes sanções, que incluíram uma diminuição do salário. A atitude teria incomodado o Los Zetas, e fez com que pensassem que Cavazos estava do lado de um grupo rival.

PERCURSO

As vítimas teriam entrado pelo Estado de Chiapas, na fronteira com a Guatemala, e conseguido chegar a Tamaulipas, na divisa com o Estado americano do Texas.

De nacionalidade equatoriana, o sobrevivente levou um tiro na garganta e foi hospitalizado, disse o porta-voz da Procuradoria Geral da República, Ricardo Nájera.

Após a declaração dele às autoridades, as forças da Marinha do México foram até o local. Houve uma troca de tiros, que matou um militar e três criminosos. Em seguida, as autoridades encontraram em uma fazenda perto dali os corpos de 58 homens e 14 mulheres. Os corpos devem ser levados nas próximas horas ao necrotério de Ciudad Victoria, capital do Estado.

As autoridades detiveram ainda um jovem na fazenda, onde também foi recolhido um arsenal com ao menos 21 armas de grande calibre, fuzis, escopetas, rifles e carregadores.

ONDA DE VIOLÊNCIA

Nos últimos anos, o México vem assistindo a uma escalada de violência por conflitos das forças de ordem com os cartéis narcotraficantes, e entre os próprios grupos ilegais.

Desde dezembro de 2006, quando o presidente Felipe Calderón mobilizou as Forças Armadas para combater os criminosos, já foram assassinadas pelo menos 28 mil pessoas no país, de acordo com dados oficiais.

Em 2009, a Comissão de Direitos Humanos estimou que 10 mil imigrantes, a maioria centro-americanos, foram sequestrados no México em seis meses, e a maioria de sobreviventes identificou os raptores como membros dos Zetas.

Nos últimos dois meses e meio, foram encontrados duas grandes valas clandestinas no país. As autoridades acreditam que foram usadas por matadores do narcotráfico para desfazerem-se de corpos de inimigos.

Em 7 de junho foram encontrados 55 corpos em uma fossa clandestina junto a uma mina do histórico povoado de Taxo (sul do México). em 24 de julho, foram encontrados mais 51 corpos em nove valas no Estado de Nuevo Léon (norte), que também é disputado entre o Cártel del Golfo e o Los Zetas.

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