Estudo aprova novas córneas artificiais


Embora em fase inicial, pesquisa que criou alternativas biossintéticas para transplantes abre caminho para a substituição de doadores humanos. Nova tecnologia não só consegue restaurar a visão como possibilita a regeneração dos nervos ópticos

A pesquisadora May Griffith mostra uma córnea biossintética como a usada nos pacientes: o material promove a regeneração dos nervos. Foto: Ottawa Hospital Research Institute/Divulgação

Paloma Oliveto

Brasília – A perda da visão decorrente de doenças ou traumas na córnea afeta pelo menos 10 milhões de pessoas no mundo, e a oferta limitada de órgãos para doação condena esses pacientes a viver eternamente na trevas. Mesmo nos países onde há bancos de córneas, como os Estados Unidos, que realizam 42 mil transplantes por ano, existem riscos de rejeição, e as próteses industriais, feitas de plástico sintético, são aplicáveis em poucos casos, além de não promoverem a regeneração dos nervos.

A pesquisadora May Griffith mostra uma córnea biossintética como a usada nos pacientes: o material promove a regeneração dos nervos.


Uma nova tecnologia, anunciada na revista especializada Science Translational Medicine, traz a esperança de devolver a luz aos deficientes visuais. Embora o estudo ainda esteja na primeira fase, ele foi bem-sucedido – conseguiu restaurar a visão e regenerou os nervos ópticos de seis dos 10 pacientes que participaram da pesquisa. Dois anos depois do procedimento, eles continuavam enxergando normalmente, com a ajuda de lentes de contato. “Com mais pesquisas, essa abordagem poderá restaurar a visão de milhões de pessoas, que estão esperando a doação de uma córnea humana para transplante”, disse uma das pesquisadoras, May Griffith, da Universidade de Ottawa, no Canadá, em uma webconferência de imprensa.

A técnica utilizada pela equipe de Griffith foi o transplante de córneas biossintéticas, moldadas para adquirir o tamanho e a forma de uma córnea humana. “Todos os pacientes tinham lesões graves, e o tipo de tratamento que precisavam era o transplante de doadores humanos”, disse a médica. De acordo com ela, os implantes foram desenhados de modo a imitar a córnea humana, que é composta, basicamente, por colágeno.

Griffith explica que a córnea é uma camada fina e transparente de colágeno e células que funcionam como uma janela para o globo ocular. “Ela precisa ser completamente transparente para permitir que a luz entre nos olhos. A córnea também ajuda a focalizar os objetos. Globalmente, a causa mais comum de cegueira são doenças que levam ao embaçamento do órgão.” A mais comum, de acordo coma especialista, é o tracoma, mal causado pela bactéria Chlamydia trachomatis, que provoca inflamação e feridas nas córneas. Aproximadamente 5 milhões de pessoas, em todo o mundo, sofrem com o problema.

Técnica recombinante – Há uma década, a médica investigava um substituto eficiente para a córnea natural. Ela encontrou o que procurava no colágeno humano recombinante – ou seja, produzido artificialmente a partir de genes clonados. “O colágeno recombinante é um substituto viável para a ocorrência natural da proteína nos humanos e não tem as limitações do transplante de um doador ou de colágenos cuja origem são animais. Esses dois outros métodos têm o problema da carência de órgãos para doação, além do risco de transmissão de doenças”, lembra Griffith.

No estudo clínico, cujo resultado foi publicado ontem na Science Translational Medicine, 10 suecos com idades entre 18 e 75 anos e vítimas de graves lesões na córnea passaram por um procedimento de ressecção da estrutura original, seguida pelo implante das córneas biossintéticas. Durante dois anos, os voluntários foram acompanhados pelos pesquisadores. Nenhum deles, mesmo os que não foram beneficiados com a melhoria da visão, sofreu rejeição, um problema comum em transplantes.

Os pesquisadores observaram que as células e os nervos da córnea natural dos pacientes cresceram sobre o implante, resultando na regeneração do órgão, que ficou parecendo um tecido normal e saudável. Não foi preciso usar imunossupressores por um longo tempo, algo necessário quando é feito um transplante de doador humano. Em termos de acuidade visual, 24 meses depois do procedimento, seis voluntários continuaram a enxergar novamente, dois não tiveram nenhum benefício, e os restantes, embora voltassem a ver após o procedimento, perderam essa capacidade nos anos seguintes.

Além disso, a habilidade de produzir lágrimas foi recuperada por todos os pacientes, mesmos os que não voltaram a enxergar. A regeneração dos nervos permitiu que eles também voltassem a ter sensibilidade ao toque em um nível maior do que o observado em pessoas que recebem transplante de córneas humanas.

“Estamos muito encorajados por esses resultados e pelo enorme potencial das córneas biossintéticas”, afirmou, na webconferência, o cirurgião ocular Per Fagerholm, da Universidade de Linköping, na Suécia, que participou do estudo. “Atualmente, estamos aprimorando os biomateriais utilizados nos implantes e fazendo algumas modificações na técnica cirúrgica. Novos estudos estão sendo planejados para estender o uso das córneas biossintéticas para uma quantidade maior de condições que requerem transplante”, explicou.

10 milhões

Total estimado de pessoas no mundo que perderam a visão por doenças ou traumas nas córneas

Cirurgias não atendem demanda

No Brasil, dados da Associação Pan-Americana de Bancos de Olhos mostram que aproximadamente 25 mil pessoas aguardam por um transplante de córnea. São realizadas apenas cerca de

3 mil cirurgias por ano. Nas secretarias estaduais de Saúde (incluindo a do DF), existem bancos, que armazenam córneas doadas. Em média, o banco de Brasília, situado no Hospital de Base, recebe

200 doações anualmente.

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