Azul e Vermelho, cordões enlaçados no respeito


Jairo Lima*

Foi na década de oitenta, estávamos Ronildo Albertim, Marcos Tenório, Marcos Almeida e eu, entre outros camaradas, então das fileiras do Partido Comunista do Brasil, nos preparando para um trabalho de pichação do nosso candidato a prefeito. Passava da meia noite e a Rua Vigário João Batista já deserta, abrigava-nos sentados na calçada da extinta loja O Camiseiro Móveis, situada em frente a sede do PC do B, onde aguardávamos a chegada do material de trabalho, quando um opala sinistro passou por nós e de dentro sobreveio várias armas de canos longos em nossa direção…

Felizmente, depois de um tenso corre-corre, ainda estamos todos vivos, aqui contando e lendo essa história. Esse e outros acontecimentos semelhantes, eram corriqueiros em nossa cidade, porém ao que nos parece, são cenas de um passado que o presente não tolera mais. Isso ficou bem claro no último domingo, dia 22/08, quando oposição e situação se encontraram em dia memorável, ambos com grande volume de militantes, alguns eufóricos. Azul e vermelho foram as cores que pintaram a histórica Praça do SESI, palco de lutas no passado. Naquele espaço foi possível presenciar uma cena de grande e exemplar civilidade e respeito mútuo. Dois mares de gente que em dado momento, foi apenas um de duas cores, a reluzir em centenas de olhares num misto de apreensão e serenidade.

Tal qual o espetáculo de um pastoril, prevaleceu o encanto, desta feita o da maturidade. Sob a regência da Mestra de cada cordão sendo representada pela sensatez dos coordenadores e das próprias militâncias. No papel da Diana, o equilíbrio trazido pela razão a ensinar, ao contrário da emoção, que a luta política deve ser travada no campo das idéias. E o Velho? Bom, foi o próprio tempo, e esse, como sabemos, é o mestre na escola da vida, onde todos nós estamos matriculados, fazendo-se presente nas piscadelas cordiais, abraços e apertos de mãos entre novos e antigos conhecidos e, no arremate dessa analogia, personifico como o Anjo, as palavras de Vinicius de Moraes: Com as lágrimas do tempo e a cal do meu dia eu fiz o cimento da minha poesia. O que foi a tônica dos minutos de aproximação que culminou com várias Borboletas que saíram voando dos estômagos aliviados num forte e confortante suspiro! Uffa!

Forte e fraco, deixou de ser quem ganha e perde e sai de uma luta alquebrado, por uso da força física. Maior argumento de quem não sabe argumentar.

Na política, vitorioso e perdedor são aqueles que correspondem ou não aos anseios do povo. O mundo cada vez mais, reclama uma melhor capacidade humana de leitura do sentimento individual e coletivo, percebendo nas pessoas as suas reais necessidades. Eis aí, a política de hoje, que o passado na via e o futuro exige. O que dá espaço para a Cigana que eu ia esquecendo.

Jairo Lima é pós-graduando em gestão pública e membro da Academia Cabense de Letras

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