“O jornalismo da grande imprensa está aí para falsificar a realidade”, diz filósofo


da Agência EP

Se você perguntar a um jornalista ou a um leitor de jornal qual a função do jornalismo, as respostas tendem a convergir para algo em torno de “buscar a verdade dos fatos”. Essa possibilidade, objeto dos estudos filosóficos desde os tempos de Platão, na Grécia Antiga, é ainda hoje um dos temas das aulas e dos estudos do filósofo, arquiteto, professor e escritor Luiz Fuganti. Alto, cabelos finos e já esbranquiçados, olhos atentos e pensamento ágil, frenético, profundo e denso. Há mais de 20 anos, ele ministra cursos, palestras e seminários acerca de um tipo de pensamento sem referências, imanente à própria natureza.

Fuganti é autor de obras como Saúde, Desejo e Pensamento; Ética como Potência e Moral como Servidão; Formação do Pensamento Ocidental; Diferença e Analogia em Platão; e Espaço, Poder, Estética e Sentido, entre outros. Em sua casa, na cidade de São Paulo, onde realiza reuniões semanais que fazem parte de um projeto conhecido como Escola Nômade, ele recebeu a Agencia Educação Política para uma entrevista na qual se falou um pouco sobre tudo.

De saída, já foi antecipando: “o jornalismo da grande imprensa está aí exatamente para falsificar a verdade, já que produz um discurso cujo objetivo é promover o assujeitamento, pois o indivíduo desacredita de si próprio e vai buscar externamente a ele a noção de realidade”. Fuganti recorre ao legado de pensadores e filósofos como Spinoza e Michel Foucault para expor suas ideias. A seguir, seguem os principais trechos da entrevista que correu solta e descontraída em meio a almofadas coloridas espalhadas pelo chão e regada por uma boa dose de café.

AEP: É possível chegar a uma verdade absoluta? Ou ela carregaria sempre uma certa subjetividade?
Fuganti: Eu sempre digo que existe um absoluto de cada ponto de vista. É como dizem: inventem o real ou não existem fatos, só interpretações de um acontecimento. O fato, portanto, é sempre uma versão do acontecimento. E às vezes acontece que a objetividade é mais objetiva ou o fato é mais fato porque contemplam a crença geral e são sustentados por um comando que mantém a ordem social. Ou seja, a maneira de enunciar já está ligada a um princípio de realidade, que é social, econômica, política e historicamente constituído.

AEP: Quando você se refere à maneira de enunciar, está se referindo ao uso da linguagem e à importância que esta adquire dentro do jornalismo?
Fuganti:
Exatamente, me refiro ao discurso, que além de ser determinado é também determinante, constitutivo da realidade. A linguagem fabrica a verdade. É uma fábrica semiótica das coisas, da qual fazem uso os gênios da mídia. Toda a imprensa faz parte dessa máquina social, produzindo sentidos de futuro, crenças e desejos. A informação, portanto, tem implicada e esconde sempre uma transformação incorporal na maneira de a gente apreender, vivenciar e experimentar o tempo. Isso causa a modificação do futuro, do passado e do modo como você percebe o presente, o que resulta em produção de subjetividade.

É uma fábrica semiótica das coisas, da qual fazem uso os gênios da mídia. Toda a imprensa faz parte dessa máquina social, produzindo sentidos de futuro, crenças e desejos.

AEP: Como a gente descreveria o funcionamento da mídia?
Fuganti:
Essa máquina semiótica ajuda a criar o sujeito assujeitado, desacreditado de si e que busca a verdade fora dele próprio. Ele mesmo não tem realidade suficiente; é como se nele existisse um buraco. Em seguida, vem essa instância da verdade objetiva –a mídia– e o preenche, gerando aceitação e requalificando depois de tirar a qualidade por meio do deslocamento e captura da atenção.

AEP: Mas como a mídia se sustenta neste processo?
Fuganti:
A própria sociedade banca o poder da mídia. As pessoas preferem muito mais a versão ao invés da realidade, trata-se do eterno “ouvi dizer” e “experiência vaga” de que fala o filósofo holandês Baruch de Spinoza.

AEP: O que vem a ser o “ouvi dizer” e a “experiência vaga”?
Fuganti:
No caso do “ouvi dizer”, você simplesmente reproduz algo; e aquilo, de tanto ser reproduzido, se transforma em uma verdade que encaixota e rotula as coisas. Esse rótulo cola e massacra uma série de vidas. O problema é que essas questões acabam sendo vistas como um acidente e esquece-se de que falamos, neste caso, da primeira instituição: a da mentira. É um cinismo incrível dizer que o jornalismo está a serviço da informação, porque o jornalismo está aí exatamente para falsificar a realidade.

AEP: Neste caso, não estamos generalizando, deixando de considerar a função social do jornalismo?
Fuganti:
É claro que não devemos reduzir o jornalismo a isso, aliás, existe um jornalismo a ser inventado. Neste ponto, entra a lição de casa, aquilo que todo jornalista deveria fazer, uma espécie de desconstrução de si mesmo.

AEP: O que exatamente vem a ser essa lição de casa?
Fuganti:
Em primeiro lugar, o jornalista deveria desconstruir a moralina que tem. O moralista é aquele que acredita que tem um ponto de vista verdadeiro, enquanto que, na verdade, o ponto de vista mentiroso ou verdadeiro é secundário; o que é primário é o ponto de vista que tem sentido. Aqui, você começaria a fazer um jornalismo interessante, fora da forca da verdade e da mentira, e mais próximo do que realmente é importante, apreendendo no atual o que ele tem de virtual.

AEP: Como um jornalista que fale sobre arte, por exemplo, poderia desempenhar no exercício da sua profissão essa lição de casa?
Fuganti:
Sendo um criador, compondo com a obra de arte em análise. Assim ele seria capaz de levar aquela obra aos seus limites ou até ultrapassar esses limites e encontrar outros limiares que sequer estavam explícitos; dessa forma, ele apreende mais os processos, os devires, cria tempos e lugares.

AEP: Como as faculdades de jornalismo poderiam contribuir para formar um bom jornalista?
Fuganti:
As faculdades de jornalismo deveriam ter disciplinas que estudassem a ordem do discurso de que fala o filósofo francês Michael Foucault, de modo que os estudantes aprendessem a usar a linguagem visando produzir uma nova semiótica. Ao mesmo tempo, seriam necessárias disciplinas que estudassem a fisiologia. Essa é uma zona de investimento para entender como o homem se serve da técnica e da linguagem para produzir seus sentidos de mundo e suas tábuas de valores.

AEP: Existe um início para tudo isso, uma causa principal para essa mídia e essa realidade na qual nos encontramos?
Fuganti:
Tudo se dá pelo meio. O homem é meio. O problema é o modo de vida individual e coletivo ao mesmo tempo, e a mídia ajuda a manter esse modo de vida ou a reformá-lo. É difícil mudar, mas também não há outra alegria, é uma dor que no fim tem um sentido alegre.

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