Jovens com acne têm mais ideias suicidas, diz estudo


Folhapress
RICARDO BONALUME NETO
DE SÃO PAULO

Cara de Chokito, rei da bereba, casca de abacaxi. Adolescentes podem ser cruéis quando resolvem “zoar” com o amigo que tem muita acne.

Um estudo feito com milhares deles na Noruega mostra que esse “bullying” pode ser perigoso. Os pesquisadores encontraram uma nítida associação entre muita acne e pensamentos de suicídio.

Os resultados podem inocentar a droga isotretinoína, cujo uso contra acne severa já foi associado ao aumento de depressão e tendências suicidas em adolescentes.

“Eventos adversos incluindo ideação de suicídio que foram associados com terapias para acne podem refletir o fardo de ter muita acne em vez dos efeitos da medicação”, escreveram os autores na revista “Journal of Investigative Dermatology”.

“Ideação de suicídio”, lembram os autores, é um termo médico que significa “qualquer pensamento reportado pela pessoa de comportamento suicida” e está associada a planos e tentativas. Inclui já uma “arquitetura” de um possível suicídio, sendo um passo além de meramente refletir a respeito.

A equipe de Jon Anders Halvorsen, da Universidade de Oslo, Noruega, enviou questionários a jovens de 18 e 19 anos. Quase um em cada quatro adolescentes com muita acne reportou ideação de suicídio. Em garotas com muita acne, a prevalência de ideação de suicídio foi mais do que o dobro do que entre aquelas com nenhuma ou pouca acne e, entre os garotos, foi três vezes mais alta.

A acne é um problema de pele comum entre adolescentes; quase todos podem ter alguma forma dessa doença inflamatória. Os casos mais severos atingem entre 10% e 20% dos “teens”.

A acne afeta glândulas no rosto que produzem gordura. Resulta em manchas, espinhas e inflamação, além do risco de cicatrizes.

Para Halvorsen, a possibilidade de que a depressão venha da doença e não da droga pode auxiliar os dermatologistas que relutam em receitar isotretinoína.

“Há remédios disponíveis nas farmácias que podem ser tentados primeiro. Para aqueles com acne suave, isso é em geral OK”, disse Halvorsen à Folha. “Há muitas opções de tratamento e todos podem melhorar da acne com o tratamento correto”, acrescenta o pesquisador.

Ele dá um conselho a adolescentes e pais: “Não esperem muito para entrar em contato com o médico ou dermatologista, pois a acne pode causar cicatrizes difíceis de tratar”.

O demartologista Marcelo Arnone, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, diz que nunca teve problemas em usar a isotretinoína: “Na minha experiência pessoal, e tenho uma grande casuística, não tive nenhum caso de depressão”.

Os estudos ligando a droga à depressão são só “relatos de casos”, diz ele. “Há a suspeita, mas é um nível muito baixo de evidência, de acordo com a medicina baseada em evidências”, diz Arnone.

O ideal seria fazer um estudo controlado de uso da droga em jovens, afirma Arnone.

Ele lembra que doenças que comprometem a imagem causam impactos psicológicos e sociais fortes, “ainda mais em adolescentes”.

VIDA SOCIAL

A adolescência é um momento delicado, quando o indivíduo se torna mais autônomo, muda o relacionamento com família e pares, e quando podem surgir relacionamentos duradouros.

Segundo Arnone, o adolescente com muita acne tende a diminuir suas atividades sociais -deixa de frequentar clubes, festas, até a escola.

O estudo também vinculou a acne a pior desempenho escolar, falta de namorado e não ter feito sexo.

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