ARTIGO: Eles fazem parte de nossa história política


Por DOUGLAS MENEZES*

Pobres todos eles eram. Sem exceção. No entanto, exerceram plenamente a cidadania ao pleitearem o voto do povo, seja como vereador ou prefeito. Tidos como folclóricos, alvo de chacotas e indiferença, justiça se faça a esses quixotescos atores de nossa política: não faltaram a eles, honestidade, pureza de princípios e principalmente algo hoje tão distante de grande parte dos políticos: mesmo ingênua, a visão ética. Aquela concepção de que se deveria ter lado, fazer uma opção, embora isto fosse feito de modo instintivo, quase animal, mas um exemplo de formação íntegra.

Assim, a cada eleição, desfilavam como cavaleiros andantes, os quase sem votos. Lembro de um deles na última eleição para prefeito: Timbaúba. Ao encontrar-se comigo, comentou: “como fiquei bonito na urna eletrônica!” Não teve duas dezenas de votos, mas seguiu a tradição: a de ser um eterno candidato.

Recordo o “retratista” Tião, fala rápida, gestos nervosos, frequentador assíduo dos comícios da chamada esquerda cabense. Ao discursar, num evento no bairro da Sapucaia, em meio á sua fala, entusiasmado bradava: “Com doutor Lúcio na prefeitura o povo vai comer mais macaxeira”. Olhou para o lado, em dúvida sobre a afirmação, vedou o microfone, com as mãos, e perguntou: “ô doutor Lúcio, é macaxeira ou aipim?” O público se deliciava de tanto rir. Mas Tião tinha lado, mostrava dignidade política, sem levar vantagem alguma.

Outro foi Pascoal. .Ao chegar para um comício no Mauriti, logo no início, aproximou-se do locutor, Romero Menezes, que estava fazendo a lista dos oradores e com tranquilidade falou: “ não me coloque logo no início, pois vou tomar uma para me animar”. Dito isto, partiu para o bar mais próximo. Hora e meia depois, chega Pascoal: “Romero, tira meu nome da lista, pois estou bebinho”. E saiu sem se perturbar, como se o dever estivesse cumprido.

Roberto Carlos, Ivo Jaca, Peitica, Pascoal, Queres, Timbaúba, Bodão, José Ribeiro, Filó, Tião, Atemísio entre muitos outros, povoaram a cena política do cabo. Como coadjuvantes. Nunca foram personagens principais, porém estavam dentro do nosso contexto político e também fazem parte de nossa história. Nem todos como candidatos, muitos eram elementos de apoio, naqueles românticos tempos, alguns mesmos com fortes conotações ideológicas, como seu Farias e Manuel Estevam, o Manuel Amaro do Jornal, comunistas convictos e que emprestaram seus nomes ao cenário político do cabo.

Esses, hoje quase anônimos, também produziram história. Tiveram sua importância, pois eram pessoas que vieram do povo. Engrossaram a fila dos que fazem a história do mundo, sem que tenham frequentado as enciclopédias com os seus nomes ou os livros didáticos, mas assim mesmo, queiram ou não os intelectuais e líderes, fizeram, também, o conteúdo histórico das eleições deste país.

*DOUGLAS MENEZES é professor, escritor e membro da Academia Cabense de Letras – Cabo de Santo Agostinho/PE

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