Cineastas das bombas produziram 6,5 mil filmes secretos



Homens arriscaram vidas para capturar imagens de explosões atômicas.
Diversos morreram de câncer, diz sobrevivente de 82 anos sobre colegas.

William J. Broad
Do New York Times

Eles arriscavam suas vidas para capturar em filme centenas de clarões ofuscantes, bolas de fogo e nuvens de fumaça em formato de cogumelo. A força de uma explosão arremessou um homem e sua câmera para dentro de uma vala. Assim que ele se levantou, uma segunda onda o derrubou de novo. Em seguida veio a radiação.

Embora muitos dos cientistas que fabricaram bombas atômicas durante a Guerra Fria tenham ficado famosos, os homens que filmavam o que acontecia quando essas bombas eram detonadas formavam uma divisão secreta.

Sua existência e a natureza de seu trabalho surgiram das sombras apenas quando o governo federal iniciou, 12 anos atrás, um esforço centralizado para tornar públicos seus filmes. No total, eles produziram 6.500 filmes secretos, segundo autoridades federais.

Hoje, o resultado é uma enxurrada de imagens ardentes em televisões e telas de cinema, além do crescente conhecimento público a respeito dos produtores.

As imagens estão sendo “cauterizadas no imaginário das pessoas”, disse Robert S. Norris, autor de “Racing for the Bomb”. Elas trazem o testemunho, segundo ele, “de um poder extraordinário e aterrorizante”.

Dois novos documentários, “Countdown to Zero” e “Nuclear Tipping Point”, apresentam imagens de arquivo das explosões. Os dois sustentam que a ameaça do terrorismo atômico está aumentando e que isso pede pelo fortalecimento das proteções nucleares – e, em última análise, a eliminação dos arsenais no mundo todo.

Quanto aos operadores de câmera, não restaram muitos deles. “Diversos morreram de câncer”, afirmou George Yoshitake, de 82 anos e um dos sobreviventes, sobre seus colegas. “Não há dúvida de que houve relação com os testes”.

Os produtores focavam em explosões de testes nucleares conduzidos no Pacífico e em Nevada.
Uma cerca eletrificada protegia seu quartel-general em Hollywood Hills. O discreto prédio, na Avenida Wonderland, em Laurel Canyons, tinha um estúdio de som, salas de projeção, laboratórios de processamento, equipamentos de animação e uma equipe de mais de 250 produtores, diretores e operadores de câmera – todos com habilitações máximas de segurança.

Dedicada paranoia
Quando originalmente feitos, os filmes serviam como fontes vitais de informação para cientistas que investigavam a natureza das armas nucleares e seu poder de destruição. Alguns filmes também eram usados como tutoriais para líderes federais e do congresso.

Hoje, controladores de armamentos veem os velhos filmes como estudos numa dedicada paranoia.

“Eles têm uma linguagem bastante estranha”, disse Mark Sugg, produtor de filmes no World Security Institute, um grupo privado de Washington. “Você e eu ficaríamos horrorizados com uma bomba de hidrogênio vaporizando um local que costumava ser um paraíso. Mas eles têm um homem se vangloriando disso”.

Um livro de 2006, “How to Photograph an Atomic Bomb” (como fotografar uma bomba atômica, em tradução livre), explora a natureza da secreta operação desses operadores de câmera, com páginas cheias de fotos e diagramas técnicos que antes eram confidenciais.

“Eles são como patriotas não-reconhecidos”, afirmou Peter Kuran, autor do livro e cineasta de efeitos especiais em Hollywood. “As imagens que eles capturaram serão, por muito tempo, uma fotografia de como era nosso século passado”.

Após inaugurar a era nuclear, lançando duas bombas atômicas no Japão na Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos se empenharam em expandir seu arsenal nuclear. Novos projetos exigiam detonações de teste, para garantir que eles funcionavam devidamente. Entre 1946 e 1962, o país realizou mais de 200 explosões atmosféricas.

Vizinhos suspeitavam
A unidade secreta de filmagem, criada em 1947 pelo exército, era conhecida como Lookout Mountain Laboratory. O laboratório, que fica a apenas alguns minutos da Sunset Strip, usava o talento e a tecnologia de Hollywood para buscar seus objetivos clandestinos.

“Os vizinhos suspeitavam de algo, pois as luzes ficavam acesas a noite toda”, disse Yoshitake.
Historiadores de filmes dizem que a unidade testou muitas tecnologias posteriormente adotadas por Hollywood, incluindo lentes e câmeras avançadas, filmes e técnicas de projeção.

Os operadores de câmera partiam para os locais de testes do governo, no sul do Pacífico e no deserto de Nevada, com a função de registrar a fúria de uma era. Isso os colocava muito perto das explosões, às vezes a 3,2 quilômetros.

Os registros visuais ajudavam os cientistas em tudo, desde estimar o tamanho das detonações nucleares até mensurar seu poder destrutivo. Cidades falsas eram dizimadas pelas chamas.
Yoshitake se lembrou de documentar o que a explosão fazia a porcos – cuja pele se parece à dos humanos.

“Alguns ainda estavam guinchando”, disse ele. “Dava pra sentir o cheiro da carne queimando. Era nauseante. Eu pensava, ‘Que coisa horrível, se fossem seres humanos eles teriam sofrido terrivelmente’”.

Os operadores de câmera tinham de apenas testemunhar, e não fotografar, suas primeiras explosões de bombas de hidrogênio, que eram aproximadamente mil vezes mais fortes que as explosões atômicas. O objetivo era fazê-los se acostumarem ao nível de violência.

“O brilho púrpura no céu – aquilo era tão assustador”, contou Yoshitake. “E nós nem estávamos perto, a cerca de 30 quilômetros. Aquilo preenchia todo o céu”.

Estrelas de Hollywood
Estrelas de Hollywood aparecem em alguns dos filmes. Reed Hadley, ator do programa de televisão “Racket Squad”, dos anos 50, atuou como um observador militar que, em 1952, testemunhou a primeira explosão de hidrogênio do mundo.

“Como você pode imaginar, as emoções estão a toda”, disse ele, a bordo de um navio de guerra no Pacífico. “E há motivos para isso. Se tudo sair conforme o planejado, logo veremos a maior explosão já realizada na face da terra”.

Autoridades de Washington viram muitos dos filmes. Membros do congresso, que controlava a apropriação de fundos atômicos, tinham exibições especiais.

Alguns dos melhores espetáculos eram armados para o congresso, lembrou Charles P. Demos, ex-autoridade de classificação do Departamento de Energia, que administra o programa de armas nucleares do país. “Eles provavelmente afetaram grande parte das decisões”.

A protegida operação perdeu sua matéria de estudo em 1963, quando as superpotências concordaram em mover todos os testes nucleares para o subterrâneo, encerrando o espetáculo das explosões atmosféricas – e o que os governos passaram a considerar como um sério risco à saúde humana, a queda de radiação residual.

Em 1997, Hazel R. O’Leary, secretário de energia no governo de Bill Clinton, tentou acabar com a confidencialidade dos antigos filmes.

Numa coletiva de imprensa, O’Leary chamou o arquivo de “uma coleção de tesouros” e prometeu liberá-los depois que eles fossem submetidos a quaisquer edições necessários por questões de segurança nacional. Especialistas nucleares dizem que o formato e tamanho de uma bomba – especialmente a de hidrogênio – podem revelar segredos de projeto.

O objetivo do departamento era tornar públicos pelo menos 20 filmes por mês, e completar o processo de liberação dentro de cinco a sete anos.

No final de 1997, um evento em Hollywood no Instituto Americano de Filmes homenageou os produtores e envolvidos. Estavam presentes algo em torno de duas dúzias dos sobreviventes.
“Você tinha de ter as câmeras gravando antes da detonação”, disse Douglas Woods, um diretor de fotografia de 75 anos, a um repórter durante a reunião. Caso contrário, segundo ele, o clarão ofuscante “queimaria o filme e emperraria a abertura da câmera”.

Kuran, o cineasta, organizou e filmou o evento em Hollywood. Impressionado com a habilidade e coragem dos envolvidos, ele misturou as filmagens do evento com imagens liberadas das bombas para produzir “Atomic Filmmakers” (cineastas atômicos), um vídeo vendido em seu site, http://www.atomcentral.com.

Epidemia pós-11 de Setembro
As liberações pararam em 2001. A entrada da administração Bush, e uma epidemia de tensão atômica após os ataques terroristas em Nova York e no Pentágono, se juntaram para gerar o fim do programa.

Hoje, o Departamento de Energia diz ter divulgado publicamente algo em torno de 100 filmes do vasto arquivo, que é controlado pelos militares. “O que você vê é o que temos”, disse Darwin Morgan, porta-voz do departamento em Las Vegas.

Uma página no site do departamento possui links para clipes dos filmes que os visitantes podem visualizar gratuitamente, e vende versões completas por US$ 10 (cerca de R$ 17) mais o frete. O site os classifica como “uma documentação eterna e assombrosa do poder e da destruição das armas nucleares”. Muitos estão disponíveis gratuitamente no YouTube, basta buscar por “declassified U.S. nuclear test film”.

Kuran continua trabalhando sobre os filmes antigos, usando metologias de alta tecnologia para aprimorar sua definição e restaurar imagens desbotadas.

“Ele arruma as coisas pixel por pixel”, disse Sugg, do World Security Institute. “Ele é daqueles fanáticos por qualidade”.

“Minha paixão é encontrar maneiras de arrumá-los”, disse Kuran numa entrevista. “O objetivo principal é não perder algo que precisa ser preservado. Eu duvido muito que eles irão lançar novamente essas bombas na atmosfera”.

Obama
Entre os espectadores está o presidente Barack Obama.

Em abril, ele organizou uma projeção de “Nuclear Tipping Point”. O documentário traça o perfil de um grupo bipartidário de ex-autoridades que estão promovendo uma visão do mundo livre das armas nucleares – um objetivo em linha com as políticas do próprio Obama.

Yoshitake, o operador de câmera, disse que a liberação e a restauração das imagens eram desenvolvimentos saudáveis, pois sua divulgação aumentava o conhecimento público sobre a ameaça nuclear.

“Mostrar o horror é uma boa coisa”, afirmou ele.

E ele imagina – agora que a Guerra Fria não existe mais – por que as nações avançadas ainda retêm mais de 20 mil das armas mais mortais entre todas.

“Realmente precisamos de todas essas bombas?” perguntou Yoshitake. “Isso é assustador”.

Tradução: Gabriela D’Ávila

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