Chávez engasga com pergunta de jornalista sobre lei eleitoral


Presidente a acusou de não conhecer a Constituição, de pertencer a um meio de comunicação que divulga mentiras, de não prestar atenção e formular “perguntas gelatinosas que não têm fundamentação lógica”, de viver na lua, de manipular…

El País
Pablo Ordaz
Enviado especial a Caracas (Venezuela)

Hugo Chávez está aborrecido, muito aborrecido. Os resultados eleitorais de domingo o deixaram de semblante contrariado. Não tanto pela ressurreição da oposição –que conseguiu 65 deputados dos 165 em disputa–, nem mesmo porque os 98 obtidos por seu partido não são suficientes para legislar à vontade, mas sim porque a forma de ganhar, através de uma lei eleitoral desenhada na sua medida há apenas um ano, deixou a descoberto sua maneira particular de usar a democracia. O aborrecimento de Chávez se revelou na tarde de segunda-feira, diante de uma pergunta de uma jornalista venezuelana.

Mais que uma pergunta, foi “a” pergunta: “A diferença entre os votos obtidos por seu partido, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e os que conseguiu a Mesa da União Democrática (MUD) é de apenas 100 mil. E é difícil entender que, tendo obtido quase o mesmo número de votos, a oposição tenha conseguido 37 cadeiras a menos que o PSUV (afinal a diferença seria de 33). Pergunto-me se estaria se confirmando a tese da oposição que afirma que a redistribuição dos circuitos eleitorais foi feita com a intenção de favorecer o PSUV, ou que talvez o voto do PSUV valha por dois…” O que respondeu Chávez? Nada. Não soube responder e, fiel a seu estilo, atacou a jornalista.

Acusou-a de não conhecer a Constituição, de pertencer a um meio de comunicação que divulga mentiras, de não prestar atenção e formular “perguntas gelatinosas que não têm fundamentação lógica”, de viver na lua, de manipular… Entre uma crítica e outra – com o coro de uma parte dos membros de seu governo e dos jornalistas do regime que riem de suas graças -, Chávez tentava responder, mudava papéis de lugar, se remexia na cadeira, segurava um lápis ou convidava a jornalista, Andreína Flores, a tomar o café que acabavam de lhe servir…

Mas o comandante-presidente não encontrava uma resposta lógica… e afinal decidiu atirar para o alto: acusou os que formulam essas perguntas de obedecer a interesses obscuros e desestabilizadores, que “tentam tirar o petróleo da Venezuela para entregá-lo aos ianques”. Mas não respondeu. Talvez porque não houvesse como fazê-lo: com a lei anterior e esses mesmos resultados, o PSUV e a Mesa da União teriam empatado em 80 deputados. Mas ele reformou a lei de tal modo que nas áreas mais inclinadas a sua gestão um deputado valha menos votos que nas demarcações onde nunca ganhou. O resultado não pode ser mais claro: uma vitória de 98 a 65 com o mesmo número de votos.

A verdade é que o presidente, que passou 24 horas em silêncio digerindo na intimidade o mau resultado, está disposto a utilizar os meses que restam até janeiro – data em que se constituirá a nova Assembleia Nacional – para aproveitar a maioria absoluta que ainda tem. O chefe do comando Bolívar e deputado Aristóbulo Istúriz advertiu assim a oposição: “Vamos legislar até o último dia, por isso preparem-se”. E Chávez, quando ia se recuperando do mal trago, desafiava a oposição a convocar um referendo para revogar seu mandato: “Como são maioria e eu já cumpri três anos deste período, lhes faço um desafio: convoquem já uma revogatória! Para quê vão esperar dois anos para me tirar? Dentro de dois anos será mais difícil, porque o que vem é ‘joropo’ [baile], por isso vão comprando alpargatas”.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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