ARTIGO: Nosso Lar, nossa ilusão


NOSSO LAR, NOSSA ILUSÃO

Por ERIVALDO ALVES*

“Das frustrações eclesiásticas surgiu um humanismo secular. A teologia foi trocada pela sociologia, a igreja pelo mundo, Deus pelo homem.” (Rubem Alves)

Necessitamos reconhecer as origens humanas de nossos pensamentos e concepções religiosas. O absoluto nosso de cada dia nada mais é do que imagem humana. O suspiro da criatura oprimida (Marx). A validez objetiva não se realizará no além, mas enquanto vivermos aqui. Acontece que a religião projeta uma ilusão, um ópio, uma gratificação contra a dureza da realidade terreal. Os determinantes concretos cercam os humanos e eles reproduzem de geração a geração os sonhos e visões de outro mundo. Só que esses sonhos e essas visões têm um significado e uma verdade para quem os tem. E assim, estamos condenados aos deuses e aos demônios.

Com o advento da ciência, profetizava-se o desaparecimento da ilusão. Educado para a realidade, o homem seria liberto das amarras religiosas e deixaria definitivamente suas ilusões. Freud vaticinava o fim da infantilidade, da religião, quando as neuroses obsessivas fossem curadas e Marx profetizava o fim da mesma com a instauração de uma sociedade justa. As pessoas aprenderiam a viver autonomamente, sem o auxílio “divino”.
Tudo parecia dar cumprimento às previsões da “ciência”, mas de repente, um novo fervor religioso tomou conta das pessoas no mundo todo – O cristianismo em todas as suas formas e correntes, o misticismo oriental, a meditação transcendental, os cultos de todos os credos, estão mais vivos do que nunca. As manifestações “espirituais” tomaram conta da TV, do cinema e da literatura em geral. Mesmo Nietzsche admite que “um mundo sem Deus é frio e sombrio.” O túmulo se abriu e Deus ressuscitou sem comprometimento com instituições religiosas.

Nossa religiosidade teima em permanecer e insistir que o ser humano é maior do que os limites da razão (Emmanuel Kant). A síntese é que o homem transcende a faticidade bruta da realidade. Daí Albert Camus afirmar que “O homem é a única criatura que se recusa a ser o que ela é”. A religião então, segundo Rubem Alves, “é a voz de uma consciência que não pode encontrar descanso no mundo, tal como ele é, e que tem como seu projeto utópico transcendê-lo”. Não podemos esquecer que ser religioso é ser sonhador.

*ERIVALDO ALVES é pastor da Igreja Batista da Cohab e membro da Academia Cabense de Letras – Cabo de Santo Agostinho/PE.

O conteúdo dos artigos é de total responsabilidade de seus autores.

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