Filhos de Sakineh pedem interferência do papa e asilo político à Itália


DA ANSA, EM TEERÃ

Os filhos de Sakineh Mohammadi Ashtiani, 43 –a iraniana que havia sido condenada ao apedrejamento em seu país por adultério– anunciaram ter pedido a interferência do papa Bento 16 no caso e solicitaram asilo político à Itália.

“Pedimos oficialmente ao papa para intervir para salvar nossa mãe”, disse à Ansa Sajjad Ghaderzadeh, falando também em nome da irmã, Sahideh.

No início de setembro, o porta-voz da Santa Sé, padre Federico Lombardi, respondeu a um apelo público do filho de Sakineh evitando excluir a possibilidade de uma interferência da diplomacia do Vaticano.

“Quando a Santa Sé é requisitada de modo apropriado para que intervenha sobre questões humanitárias junto a autoridades de outros países, como aconteceu muitas vezes no passado, costuma fazê-lo não de forma pública, mas através dos próprios canais diplomáticos”, afirmou Lombardi na época.

De acordo com Sajjad, ele e a irmã temem ser presos no Irã, e por isso pedem asilo político à Itália. “Recebemos telefonemas de pessoas que se apresentavam como agentes da inteligência que nos ameaçaram, e uma vez me convocaram em seu escritório, mas não fui”, relatou o jovem.

“Mas existe a possibilidade de que nos prendam a qualquer momento”, completou ele, citando também seu advogado, Javid Houtan Kian. “Ele foi convocado pela magistratura para sábado, e ali poderiam detê-lo”, apontou Sajjad.

Segundo o rapaz, alguns dias atrás as autoridades fizeram uma busca na casa do advogado e levaram diversos materiais, assim como já haviam feito há cerca de um mês. As forças de ordem também teriam instalado câmeras fora do escritório de Kian.

O ministro italiano do Interior, Roberto Maroni, evitou dar qualquer declaração sobre o pedido de asilo anunciado pelo filho de Sakineh à Ansa. “Não tenho nenhum comentário a fazer”, disse ele a jornalistas.

A chancelaria, por sua vez, informou que a solicitação será avaliada “através dos contatos com os diversos parceiros europeus em Teerã”, conforme assinalou o porta-voz Maurizio Massari. Sajjad já havia comentado em uma entrevista recente que temia por sua vida e a da irmã, e que pensava em pedir asilo ao premier Silvio Berlusconi.

O caso de Sakineh mobilizou governos e entidades de direitos humanos de todo o mundo. Acusada de adultério e de ter participado da morte do marido, ela foi condenada ao apedrejamento pelo primeiro crime, mas teve a pena suspensa.

O castigo, posteriormente, teria sido substituído por enforcamento pelo segundo delito, de acordo com declarações do procurador-geral da nação persa, Gholam Hossein Mohseni-Ejei.

O Ministério de Relações Exteriores iraniano, no entanto, rejeitou que a decisão fosse definitiva e garantiu que os procedimentos legais ainda não estavam concluídos.

POLÊMICA

O caso envolvendo Sakineh causou polêmica internacional, com vários países condenando a sentença e o tratamento dado à mulher.

Mãe de dois filhos, Sakineh foi condenada pela primeira vez em maio de 2006 a receber 99 chibatadas por ter um “relacionamento ilícito” com um homem acusado de assassinar o marido dela. Sua defesa diz que ela era agredida pelo marido e não vivia como uma mulher casada havia dois anos quando houve o homicídio.

Mesmo assim, ela foi, paralelamente à primeira ação, julgada e condenada à morte por adultério. Ela chegou a recorrer da sentença, mas um conselho de juízes a ratificou, ainda que em votação apertada –3 votos a 2.

Diplomatas iranianos afirmam que foi encerrado o processo de adultério e que a mulher é acusada “apenas” pelo assassinato do marido.

Os juízes favoráveis à condenação de Sakineh à morte por apedrejamento votaram com base em uma polêmica figura do sistema jurídico do Irã chamada de “conhecimento do juiz”, que dispensa a avaliação de provas e testemunhas.

Assassinato, estupro, adultério, assalto à mão armada, apostasia e tráfico de drogas são crimes passíveis de pena de morte pela lei sharia do Irã, em vigor desde a revolução islâmica de 1979. O apedrejamento foi amplamente utilizado nos anos após a revolução, mas a sentença acabou em desuso com o passar dos anos.

Sob as leis iranianas, a mulher é enterrada até a altura do peito e recebe pedradas até a morte.

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