Ciro diz que ‘aprendizes de mafiosos’ do PT fizeram eleição ir para o 2º turno


Agência folha
RANIER BRAGON
DE BRASÍLIA

Integrado nesta semana à coordenação da campanha de Dilma Rousseff (PT), o deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE), 52, afirma que escândalos do PSDB, aliados a outros patrocinados por “aprendizes de mafiosos” do PT, formam a “frouxidão moral” que teria levado parte eleitores politizados a descarregar votos em Marina Silva (PV) e levar a eleição para o segundo turno.

O deputado volta a criticar o PMDB, principal partido aliado a Dilma, dizendo que há contradições “graves” e ainda não resolvidas na aliança, embora seja “impossível” governar sem essas contradições.

Candidato preterido pelo Planalto na disputa presidencial, Ciro diz que não tem perfil nem lhe foi pedido para ser “paz e amor”.

Com isso, afirma se sentir liberado para passar por cima das “cordialidades conservadoras” impostas aos candidatos, entre elas a questão sobre o debate em torno do aborto.

Ele diz que Dilma e Serra têm “rigorosamente” a mesma opinião sobre o tema e ataca justamente boa parte da ala religiosa conservadora que a campanha petista procura não melindrar, afirmando que posições defendidas por “mulás, talebans e aiatolás” são usadas pela oposição para tentar fraudar o resultado da eleição.

Folha – Deputado, o sr. é da região Nordeste. Dilma foi bem votada lá, apesar da abstenção muito alta em alguns Estados. O que o sr. pode acrescentar de novo, de relevante, para a campanha dela neste segundo turno?

Ciro Gomes – O segundo voto mais relevante, especialmente o voto mais qualificado nas grandes capitais brasileiras, Fortaleza, Recife, Salvador, foi o voto dado à Marina. E eu quero crer que o pulso fundamental desse voto é de natureza ideológica e ética. Claro que tem ali uma base religiosa. Mas o essencial e relevante desse voto é de natureza ideológica e ética. E o segundo turno a gente tem obrigação de explicar às pessoas, que por simpatia deram esse voto, por intransigência ética, correta, que estão de saco cheio desses escândalos do PSDB e do PT, de quanto se parecem no ruim. As pessoas quiseram dar uma oportunidade a uma coisa nova, mais arejada, mais leve, menos pesada, menos rancorosa. Mas essas pessoas ao mesmo tempo são progressistas. Pra nossa sorte, são classe média, escolarização razoavelmente boa.

O sr. pode contribuir nesse convencimento…

É, no Brasil, a Marina foi primeiro lugar em BH. É preciso discutir com essas pessoas e dar a elas os argumentos para que elas relativizem a simpatia correta que tiveram pela Marina e entendam que agora o que está em discussão não são nossas simpatias, mas o futuro do país, antagonizado por dois projetos que felizmente são muitos claros.

Isso leva a uma frase que o sr. disse, a tal da “frouxidão moral”, que afetou essas pessoas.

PSDB e PT.

O que é PSDB e PT? O caso Erenice é um exemplo?

Não, você pergunte isso pro PSDB. Pra mim, que sou aliado do PT, você pergunte aos do PSDB. Então vou te dar aqui todo o conjunto de prática que esse grande jornalista que é o Elio Gaspari [colunista da Folha] chama de privataria, o processo de privatizações. O cidadão está no telefone falando com o FHC, então presidente da República, dizendo que operaram no limite da irresponsabilidade [na verdade, a conversa captada pelos grampos do BNDES, em 98, é de Ricardo Sérgio com o ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros]; o Serra nomear pro centro de eventos de São Paulo um banqueiro chamado Márcio Fortes, do Rio [Fortes foi nomeado presidente da Emplasa em 2009]; o Serra assumir a Prefeitura de São Paulo e, como primeira providência hospedar os saldos da Prefeitura de São Paulo em um banco privado [em 2005, Serra tentou repassar ao Itaú e ao Bradesco o gerenciamento das principais contas bancárias da prefeitura]. Não adianta você escrever que não sai, não é publicada essa informação. E, do outro lado, os aprendizes de mafiosos do PT, que de vez em quando mandam uma dessa.

Caso Erenice, por exemplo?

Isso é você quem está dizendo.

O sr. não pode exemplificar?

Eu sou militante desse lado, eu tô exemplificando por que essas pessoas, fartas dessa similitude no negativo, deram 20% qualificadíssimos de votos na Marina. E esses é que vão dar felizmente para o Brasil a vitória à Dilma.

Para ficar claro, o sr. considera que há “frouxidão moral” tanto lá quanto aqui, mas aqui o sr., por ser militante…

Não, não é que eu não prefiro não dizer. A questão básica é que eu tenho medo da edição que você vai fazer no jornal, já antecipadamente lhe disse isso, por um certo facciosismo da mídia brasileira, que eu considero absolutamente normal. Nenhum problema em relação a isso.

A votação da Marina deu uma ideia que havia espaço para uma terceira via no país. Até há alguns meses, o sr. tentou ser essa terceira via, foi até estimulado pelo presidente Lula, na época do governo. O sr. acha que o presidente errou ao patrocinar, nos bastidores, uma articulação para que o PSB não lhe desse a legenda?

Erramos todos nós. O Brasil não cabe nessa falsa polarização que a política de São Paulo pretende impor ao conjunto do país. Mas quem mais duramente sabe disso é o Lula. Ele, o nosso campeão, o mais exuberante dos nossos quadros, o mais popular dos nossos quadros, nunca ganhou nenhuma eleição no primeiro turno.

Mas ele assumiu esse erro? Ele tentou desta vez [ter uma candidatura única de sua base como forma de vencer no primeiro turno]?

Sim, mas esse é um erro de todos nós.

Então ele reconheceu um erro?

Não. Mas não é hora de tratar disso, é hora de pensar no futuro. Se eu fosse pensar nisso, não estava aqui. Ao contrário do que essa nossa querida mídia também diz, eu não me movo por ressentimentos (risos).

Os aliados estariam cobrando um Lula mais “paz e amor”, com classe média, com imprensa. Uma Dilma mais “paz e amor”. E o sr. é conhecido por não ser exatamente paz e amor, é uma pessoa franca, bateu, levou. Como conciliar uma campanha “paz e amor” com o sr. na coordenação nacional?

Veja bem, eu lhe dou um doce dos bons se você me disser um único precedente em que eu fui agressivo sem ser em reação a uma injustiça. Se você disser assim: ‘O Ciro tomou a iniciativa de ser agressivo porque é um cara que tem temperamento agressivo’. Qual é o inimigo meu na política pessoal, em 32 anos de vida pública? Agora, o que eu acho, e talvez [seja] uma das razões de eu ter sido convocado, é que o futuro do país não admite essas cordialidades conservadoras. Porque a cordialidade conservadora mantém por cima da mesa essa aparência de elegância e faz a coisa mais imunda, sabe, e mais do que imunda, ameaçadora do futuro dessa nação, por debaixo dos panos. Por exemplo: você não sabe a campanha que está acontecendo na internet, incitando o ódio religioso, você não tem ideia disso?

Mas apoiadores do PT também estão fazendo isso contra o Serra.

Viva a democracia e viva a República e condene quem estiver fazendo isso, seja quem for. Porque, amigo bom, você é um jornalista. O dia em que gente permitir que o Brasil, que é admirado no mundo inteiro pela sua pluralidade, pela sua tolerância, pela sua laicização, por sua capacidade de todas as crenças sincreticamente se celebrarem aqui, sem violências, sem ódios, porque sempre mantivemos isso fora da política. Está se fazendo isso. Estou chamando a atenção.
Há limites. Determinados oportunismos tem que ser banidos, porque eleições se ganham e se perdem, mas as construções das bases em que uma cidadania se afirma… O Brasil pode estar experimentando nesse instante um retrocesso. Eu no dia em que precisar consultar o aiatolá da minha comunidade para tomar uma decisão civil, eu estou fora. Que ela vá lá ele mesmo, ele o aiatolá, o mulá, que vá lá e tome conta ele mesmo.

O sr. está falando do caso do aborto?

Não estou falando do caso de aborto, estou falando de toda a tentativa… Aborto. Vamos falar de aborto. Quem é no planeta terra que pode ser a favor do aborto? Pelo amor de Deus, eu tenho uma filha, eu namorei com algumas moças, sou de origem modesta. Então, o abordo é uma tragédia, é uma tragédia humana, emocional, psicológica, de saúde pública, religiosa, moral, ética, uma tragédia. Quem pode ser a favor do aborto, pelo amor de Deus?

O debate é sobre a descriminalização…

Não, aí você tem um grande debate não resolvido no planeta: que relação o Estado deve ter com essa tragédia. Nunca houve no Brasil uma possibilidade de o presidente arbitrar essa questão. É que nem a velha pergunta do preço do feijão e do pãozinho, é a velha pergunta do Fernando Henrique: FHC, você acredita em Deus?

Mas o presidente tem certa influência no debate.

Tem pela manipulação do ódio religioso. Porque aí é que está o problema. Você discutir perplexamente, como o assunto recomenda, sem preconceito, esse drama de saúde pública, esse drama moral, pelo ângulo que você quiser, é um assunto. E não é o presidente da República. Em nenhuma circunstância o presidente da República tem poder nenhum sobre isso. É o Congresso Nacional, que por sua vez não tem a menor coragem de tocar no assunto, nem esse nem o próximo, tranquilize-se o brasileiro. Contra ou a favor, infelizmente, até por omissão, o Congresso Nacional brasileiro não tratará do assunto. Não dirá nem que sim nem que não. Continuaremos fazendo todos de conta que o rico pode fazer do jeito que quiser em uma clínica muito bem limpinha e que a pobre vá se ferrar enfiando uma agulha de tricô na vagina porque os mulás, os talebans e os aiatolás não querem que se discuta o assunto. Infelizmente vai continuar assim.

Esses mulás, esses aiatolás, esses talebans estão em parte apoiando a Dilma.

Sim, mas o Serra tem uma opinião diferente? A opinião do Serra e da Dilma sobre esse assunto é rigorosamente a mesma. Para o bem ou para o mal.

Mas por que agora ela não deixa claro… Por exemplo, em 2007 ela teve uma posição [a favor da descriminalização], agora mesmo que por pressão desses grupos ela evita…

A manipulação de um assunto dessa polemicidade e dessa complexidade por incitação de ódios religiosos funda no Brasil, e funda no Brasil de uma forma grave, um retrocesso de mais de 200 anos, ou mais de 300 anos, no tempo em que a inquisição se instalou no Brasil, quando caiu o príncipe Maurício de Nassau, iluminista, e se queimou gente em praça pública. Essas cobras é bom de matar no ovinho logo.

A coluna de hoje [06.out] do Fernando de Barros [e Silva, colunista da Folha, que escreveu que o debate do segundo turno vem sendo pautado pela “cabeça de Severino Cavalcanti”, ex-deputado, ativista católico antiaborto] diz que o debate parece estar sendo pautado pela cabeça de Severino…

Li, brilhante. Brilhante, mas o Fernando Barros é um jornalista. Mas não [está pautando]. Hoje, lá na coordenação, agora já falo como membro da equipe. Eu tenho tanta confiança no povo brasileiro, na sabedoria e maturidade democrática do povo brasileiro, que eu não vejo centralidade nisso. Eu vejo um esforço oportunista de tentar fraudar o resultado natural da eleição, trocando o debate que importa, que é concepção de futuro, de modelo de Estado, relação do Estado com a economia, como vai fazer com o petróleo do pré-sal, se vamos entregar para as multinacionais estrangeiras, ou vamos manter estatizado, como é a nossa concepção, por esse debate que não tem solução, que incita o ódio, que bota o demônio na história. Bota o demônio, meu companheiro.

Como ela sai dessa, na visão do senhor, armadilha?

Acho que ela tem que perguntar ao Serra se ele assume a responsabilidade de que ela tenha alguma posição equivocada ou criminosa em relação a isso. Eu, se fosse ela, faria isso.

Posição criminosa seria defender a legislação como é hoje, como seria?

Seja como for. O presidente da República não tem nada com isso. A Dilma só fala que é contra o tempo todo.

Contra o a aborto. Mas e a descriminalização?

Mas esse é outro problema, do Congresso. O que o Presidente da República tem com isso? Pergunta o que que ele acha, pergunta ao Serra se ele achou natural, por exemplo, introduzir nos genéricos a pílula do dia seguinte? Há mulás e talebans contra. Consideram abortiva. E o Serra é o responsável, de boa fé, quero dizer, como bom ministro da saúde que foi, pela pílula do dia seguinte [A pílula do dia seguinte é um dos métodos contraceptivos criticados pela Igreja Católica e distribuída pelo Ministério de Saúde. Sua adoção foi decidida antes de Serra ser titular da pasta, mas sua distribuição ocorreu em sua gestão e foi ampliado no governo Lula]. Rigorosamente. O Serra pensa rigorosamente, eu conheço o Serra há 25 anos, pensa rigorosamente igual à Dilma nesse assunto. Então se alguém quer definir o seu voto no segundo turno por esse assunto, infelizmente não vai conseguir.

Qual é o pensamento dos dois?

Que esse assunto não é do presidente da República. Cada um deles é contra, mas cada um deles tem uma preocupação com a questão do impacto disso na saúde pública e cada um deles acha que o Congresso Nacional, na hora madura, deverá amadurecer essa questão. Uns acham um pouco mais fortemente que a legislação, como está, que permite o aborto em casos de estupro e em casos de ameaça à saúde da mãe, pode. Outros acham talvez que podem avançar e modernizar um pouco mais, mas nenhum dos dois pensa diferente. Quer definir o voto? Então ache outro assunto, esse não vai dar para distinguir.

Retomando uma pergunta: para sair dessa “armadilha” então a Dilma teria que perguntar ao Serra se ele libera ela uma posição mais…

Se ele assume a responsabilidade por essa campanha de difamação, de calúnia e de mentira que clandestinamente grassa com um certo coadjuv… de nossa querida mídia? O Serra tomou uma decisão. Quem botou em vigor, que autorizou o uso pelas meninas, o uso da pílula do dia seguinte? O Serra. Diga-se, a bem da verdade, em muito boa hora, como bom ministro da saúde que foi. (…) “Serra, cê assume que tá mandando distribuir DVDs apócrifos dizendo que quem votar não sei o que vai para o inferno? Cê acha que é assim que a gente tem que decidir na política? Ou, mais explicitamente, qual é a sua posição sobre o aborto? Ou, Serra, você acha que a sorte do nosso país, a relação desse grande país com o mundo, a relação desse país com 40 milhões de pessoas pobres, deve ser resolvida pelo ódio religioso que o moralismo mal posto está querendo colocar pela sua militância clandestina?”

Mas está explorando o moralismo na coligação dela.

Hoje eu disse lá no PT. Por que tanto o PT é assim? Por causa do moralismo exacerbado que vocês sempre manipularam contra os outros.

A posição do sr. sobre o aborto, qual é?

Eu agora não posso ter posição pessoal, mas eu fui candidato a presidente duas vezes, minha posição é mais clara um pouco. Eu acho que o Estado nacional brasileiro não tem nada a ver com esse assunto. Esse é um assunto da intimidade humana, moral, ética e religiosa da família e da mulher, especificamente. Ou seja, não tem nada que criminalizar coisa nenhuma. Isso é a minha particular opinião, pessoal, não tem nada a ver com a opinião da Dilma, que é contra.

O PT aprovou isso: [resolução em que] a mulher decide a relação…

Agora será profundamente desonesto se você tirar todo o entorno desse assunto que eu fiz e reduzir o assunto a “Ciro assume a coordenação de Dilma e se revela favorável à coisa”. Isso não é honesto.

PMDB. O sr. falou muito já sobre o partido. Peguei frases recentes como a de que [Michel] Temer [presidente do partido e vice de Dilma] estava chefiando uma turma de pouco escrúpulo e um ajuntamento de assaltantes.

Essa frase de ajuntamento de assaltantes eu nunca disse. Isso foi uma armação feita pelo iG. Eu nunca dei essa entrevista e nunca deixei de assumir coisas que falei. [Ciro contesta entrevista publicada pelo portal quando sua candidatura estava praticamente sepultada. Mas em entrevista que deu logo após ao programa “É Notícia” (RedeTV!), do repórter especial da Folha Kennedy Alencar, Ciro repetiu boa parte da argumentação que saiu publicada. Nessa entrevista, Ciro falou a frase sobre o “ajuntamento de assaltantes” que nega ter dito. E atribuiu a Temer a chefia desse grupo: “O PMDB tem tantas virtudes e defeitos como qualquer outro partido. O problema é a hegemonia. Hoje quem manda no PMDB não tem o menor escrúpulo, nem ético, nem republicano, nem compromisso público, nada. É uma ajuntamento de assaltantes, na minha opinião. (…) Acho que o Michel Temer hoje é o chefe dessa turma. Dessa turma de pouco escrúpulo.”] Eu volto a esse assunto. Eu penso que essa aliança PT e PMDB tem contradições graves. Nunca deixei de pensar isso. Sou aliado do PMDB no Ceará, acabamos de eleger um senador do PMDB, o vice nosso é do PMDB. Mas aí é reducionismo da nossa querida mídia, as vezes é por falta de espaço. O assunto é complexo daí você quer reduzir a simplificações grosseiras. Então eu acho que há uma contradição, mas no Brasil é impossível governar sem essa contradição. O que é preciso é preciso é pôr sobre essa contradição uma hegemonia moral e intelectual clara. E isto que eu acho que ainda falta.

O sr. queria se referir [nas frases anteriores] ao Temer [vice de Dilma] especificamente?

Não, estou falando de Eduardo Cunha [PMDB-RJ, deputado federal, aliado de Temer], de Orestes Quércia, que acompanhou o Serra. Vamos ter essa clareza. Todo mundo olha a contradição no lado da Dilma, agora o Quércia, o famoso, o notório, o conhecido Quércia, do jornal do seu lugar, acompanhou o Serra, votou no Serra, está com o Serra no segundo turno.

Em relação à essa entrevista do iG…

Nunca dei essa entrevista, em on ou off. Nunca dei. Eu conversei com ele dizendo que não ia dar entrevista, e como confiava nele, fui dizendo por que não ia dar. “Porque estou aborrecido, quero pensar um pouco mais, passa amanhã.”

Mas o que ele pôs lá, ele mentiu em alguma coisa?

Ele fraudou tudo. Mentiu. Em várias coisas. Descontextualizou pelo menos tudo.

“Lula viajou na maionese”, “Serra mais preparado do que Dilma”…

Viajou na maionese ele. Desonestamente. Aí ligou para mim 50 vezes, tenho registro das coisas aqui, dizendo: “Porra, você não sei o que, tal”. “Não, rapaz, você estava me pedindo a entrevista, eu confiei em você, disse que não queria lhe dar entrevista, que dava entrevista amanhã às 11h, tá na coisa, e tal” [aí ele pergunta] “Por que você não quer dar entrevista, tá muito zangado?”. Aí eu disse, “é natural, né, cara? Natural, vê o que fizeram comigo”, assim. Por que ele não colocou essa parte?

Mas nessa conversa informal o sr. chegou a falar o que foi publicado?

Parte sim, parte não. A parte que fala, por exemplo, “Lula não é santo”. Veja se a frase é a mesma: o Lula é uma figura extraordinária, a figura mais exuberante que eu já conheci na minha vida, a maior liderança da história popular da história brasileira, e olha que eu acho que o maior presidente não foi ele, foi o Juscelino [Kubitschek]. Olha, ele não é Deus. O que eu quero dizer: ele tá errado nisso, pra que correr o risco de botar os ovos numa cesta só? Amanhã basta discrepar um, vai ser o PSOL, vai ser não sei quem, a Marina sai, vai tirar 15%, vai ter segundo turno. Tá tudo dito, o que está acontecendo. Então, foi alguma coisa que desmerecesse o Lula se você colocar a frase inteira? [descontextualizou] Tudo. Tudo. Porque estava a serviço, evidentemente. E eu, bobamente, confiei. [Procurado, o iG não se manifestou até a publicação dessa entrevista]

Concluindo outra pergunta: então não haverá um Ciro “paz e amor”?

Eu sou uma pessoa só, para o bem e para o mal. Evidente que à medida que o tempo passa vou ficando um pouco mais maduro. Não diria um pouco mais sereno, porque você vai rir, mas também estou um pouco mais sereno diante das coisas todas. A primeira reação espontânea minha seria [dizer]: “Não, se virem aí, vocês não me dispensaram? Se virem aí”. Eu não senti nem remotamente a vontade de dizer isso, só me deu vontade de vir ajudar. Estou pensando no país. Não quero participar do governo de ninguém, tô com vontade, tô feliz da vida.

O sr. disse que só age agressivamente em reação a injustiças. Se for provocado, reagirá agressivamente?

Ninguém me pediu nada. Inclusive perguntei ontem: com é a tarefa aqui? Eu não sou um pensador, não sou homem de ficar aqui em Brasília trancado em reunião com petista. Eu quero ajudar nessa fase, se minha opinião de 32 anos de vivência valer alguma coisa. Mas eu quero é ir é para a rua. E na rua, eu sou eu. Aí respondo eu pelas minhas opiniões, a Dilma não tem nada a ver com isso. Todo mundo sabe que a Dilma é a Dilma, que eu tenho restrições à aliança dela, que eu tenho divergências de conceito com o PT, que até exponho com clareza. Então…

Então ninguém te pediu pra maneirar?

Eu tô doido é para ir pra casa, tô doido para ficar quieto. Se não fosse o interesse nacional que, na minha opinião, tão gravemente está em jogo, eu queria estar quieto. Ficar quieto não. Cuidando lá da paróquia, onde ela ganhou com 66% dos votos.

Olhando lá da paróquia, houve mesmo sapato alto [na campanha da Dilma], em sua opinião?

Veja bem, só com muita arrogância e muito equívoco para não ter a noção do fenômeno extraordinário que a Dilma foi. Eu mesmo achava que o grande risco era a Dilma, por inexperiência, dar uma escorregada violenta, isso não aconteceu. A Dilma, seis meses atrás, ninguém sabia quem era ela. Na primeira eleição vai a 47% dos votos, isso é um fenômeno extraordinário. Agora, quem imaginou que seria um passeio e coisa e tal cometeu um equívoco.

Mas não foi o dedaço do presidente Lula, a transferência de votos?

Pouco importa, né? O Serra é quem, quem é o Serra? Quem é o Serra, rapaz? Fernando Henrique. Quem inventou o Serra foi o FHC. Serra nunca passou de um deputado federal brilhante, coisa e tal, mas um deputado federal de pouco voto. Ministro do FHC oito anos, candidato do FHC contra o Lula. O Lula escolheu o melhor quadro que poderia escolher na coalizão do PT. No PT ninguém teria mais qualificação do que aquela que o Lula escolheu.

No governo, o presidente Lula alguma vez alimentou esperança no sr. explicitamente de transformá-lo em candidato à sua sucessão?

Isso é assunto para as minhas memórias.

Está escrevendo?

Não, tô novinho demais para isso. E os personagens estão todos vivos ainda.

Concluindo aquela entrevista ao iG, o Brasil está à beira de uma crise fiscal e cambial [outra frase atribuída a ele]?

Temos um problema no câmbio, sem dúvida, e um problema fiscal também. [Para de falar e mostra um editorial do jornal “O Globo”]. O olhar do “Globo” é que devíamos cortar os aposentados, matar os funcionários públicos, extinguir o Bolsa Família e gerar excedentes para baixar os juros e o câmbio deslizar para uma posição de desvalorização. O problema da desvalorização do câmbio é causado por um erro de estratégia e conservadorismo, mas não sou eu quem vai corrigir. Seria se eu fosse o presidente. Agora, não serei o presidente, só sou um cabo eleitoral.

O que o sr. acha das propostas do Serra de salário mínimo de R$ 600, de aumento para os aposentados?

Todas muito bem intencionadas, mas a grande pergunta é: por que quando ele foi ministro oito anos do FHC fez tudo o oposto? Bem o oposto. Ele me chamou de mentiroso porque eu disse que quando eu era ministro da Fazenda o salário mínimo era equivalente a US$ 100, na verdade era US$ 97,80. Eles reduziram para o menor valor real da história –US$ 76 quando o Lula tomou posse. E o Lula tá pagando o maior salário mínimo da história sob o ponto de vista real, desde quando foi criado por Getúlio Vargas. Claro que ainda é muito baixo, então alvíssaras de que o Serra prometa. A pergunta é porque não fez quando teve oportunidade. O Bolsa Família eles passaram o tempo inteiro em uma grande dubiedade. De um lado, que isso era uma esmola. E deu outro, que isso foi uma criação deles. O DEM, que é vice, entrou na Justiça contra o Prouni. Isso é fato. Vamos discutir uma posição insolúvel desse ou aquele militante sobre o aborto quando o fato real é esse? Cento e vinte mil garotos brasileiros acabaram de formar na primeira turma do Prouni. Eles entraram na Justiça para proteger o interesse nas mensalidades escolares, na rede privada de educação, que aliás foi criação do Paulo Renato, ministro da educação do FHC e secretário de Educação do Serra, que por sua vez patrocinou a destruição do ensino superior público brasileiro. Pergunte à Andifes. Isso é o que interessa para o povo. Saúde, educação, emprego, moradia, relação do Estado com a vida do povo. Eles lutaram no Congresso para entregar para as multinacionais o pré-sal. Defenderam enlouquecidamente o marco regulatório privatizante do petróleo, nós pensamos diferente.

Em 2006, o Alckmin começou na defensiva naquela questão da privatização, e agora a campanha da Dilma aparentemente começa na defensiva pela questão do aborto…

Mas tem uma diferença brutal. Naquela era verdade, nessa é falsa, nessa é armação.

O sr. teve uma atuação no Congresso um pouco afastada do plenário e recentemente transferiu o título para São Paulo. Sua eleição para deputado e a transferência do título foram erros?

Cumpri uma missão nas duas questões. A primeira me engrandeceu, aprendi bastante. Mas saio dessa experiência muito preocupado. Enquanto nossa querida mídia exalta essas mazelinhas de passagens, não sei o que e tal, isso aqui tem um colapso institucional crônico. Você tem 20 mil proposições pendentes de deliberação. Salvo a agenda do Executivo e salvo novas proposituras, levaríamos 10 mil semanas… Eu não tenho paciência para isso, alguém tem que ter, porque esse aqui é o santuário da democracia. Tá errado. A coalizão PT e PMDB, que hegemonizou isso aqui, foi o meu azar. Isso aqui já fez a Constituinte. Se eu tivesse tido sorte [de participar da Constituinte], cê ia ver um grande parlamentar, com ideias sobre todas as coisas. Mas quando fui fazer minha primeira ideia, que é uma espécie de lei de responsabilidade social, que tá pronta, com o mínimo de desempenho, federalismo de integração, que exigia uma legislação complexa, quando fui lá olhar, tinha isso, 20 mil proposituras pendentes de deliberação e a Câmara votando duas por semana. É só isso, é só politiquinha. Assiste a uma sessão para ver se eu não tenho razão. Cê não discute um assunto que interessa. O Eduardo Cunha (PMDB-RJ) apresentou uma emenda criando um crédito tributário de IPI de R$ 76 bilhões em uma medida provisória que criava um subsídio de R$ 1 bilhão para a casa própria. Fui para a tribuna, denunciei. Perdi por 300 a 120 votos. Passou no Senado, consegui que o presidente vetasse. A grande imprensa não falou nada, zero.

Sobre a transferência do título?

Aí foi o maior erro da minha vida, de boa fé. Atendi ao Lula, ao Eduardo Campos [presidente do PSB], mas foi, disparado, o maior erro que cometi em minha vida. Eu não quero mais ser candidato a nada. Zero, está tudo certo pra mim. Vou, como diz o meu filho, dar um tempo.

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