ARTIGO: Fundamentalismo Cristão no país do ‘vale tudo’


ENILDO LUIZ GOUVEIA*

No Brasil vota-se em político corrupto, em palhaço semi-analfabeto, em pessoas sem a menor capacidade intelectual. Vota-se pela beleza de fulano, pelo parentesco de sicrano etc. Não existe no país uma grande mobilização contra a pedofilia, pela moralidade em programas da TV (sobretudo nas novelas) e nas músicas, contra a desmoralização da educação pública, contra a fome e a exclusão. Também não há, salvo em casos de grande repercussão, uma sensibilização pela situação dos dependentes químicos, estupros, violência contra idosos e crianças. Num país assim, por que então, a legalização da relação homoafetiva ou homossexual provoca tanta indignação ao ponto de ser encarada como um atentado ao pudor ou ato satânico? Por que o aborto, que particularmente sou contrário, provoca tanta polêmica e os espancamentos ocorridos, em geral na própria família, não? E as crianças desnutridas e vitimadas por falta de atendimento médico, qual é a comoção nacional?

Todos estes fatos listados me fazem pensar que somos um país onde o falso moralismo, bem como, a fé, são utilizados de forma tendenciosa, para, na verdade, esconder os reais interesses.

Analisando o primeiro turno das eleições 2010, grande parte dos votos dados a Senadora Marina Silva, pessoa integra e séria, durante, não foram dados por causa da “Onda Verde”. Quiçá nós brasileiros, sobretudo os empresários e políticos, estivéssemos de fato preocupados com o Meio Ambiente. Particularmente não acredito nas boas intenções ambientais do Partido Verde. Também gostaria de ver uma terceira via política no país algo que está distante de acontecer, dada a polarização de grupos políticos tão característica na democracia brasileira.

O que explica a maior parte dos votos dada a Marina é justamente o falso moralismo citado. Entendo que jamais as Igrejas, tanto católicas como protestantes (as expressões cristãs majoritárias no Brasil) possam ser a favor do aborto e da relação homossexual. Mas sinceramente, não creio que isto seja suficiente para satanizar determinado candidato (a). Existem outras formas mais honestas de defender seus interesses, inclusive mediante a coleta de assinaturas para apresentação de medidas populares junto ao legislativo. O que não pode ocorrer é colocar a perigo todos os avanços sociais e econômicos ocorrido nestes últimos oito anos, sobretudo no Nordeste, em nome de um fundamentalismo cristão que não admite o Estado laico e não sabe conviver com as diferenças. Que Deus tenha piedade de nós!

*ENILDO LUIZ GOUVEIA é professor de Geografia, poeta e compositor – Cabo de Santo Agostinho/PE (chapeupjmp@bol.com.br).

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