EUA ignoraram tortura e mais de 100 mil morreram na guerra do Iraque, revelam documentos


Agência Folha
DE SÃO PAULO

Cerca de 400 mil documentos confidenciais divulgados nesta sexta-feira pelo site WikiLeaks apontam que forças dos Estados Unidos e seus aliados cometeram abusos, execuções sumárias e ignoraram repetidos atos de tortura no Iraque.

Ainda de acordo com os dados secretos, cerca 109 mil pessoas morreram no país — 66 mil delas civis. Segundo os documentos, mais de 15 mil das vítimas civis morreram em incidentes que não haviam sido previamente divulgados. Autoridades americanas e britânicas insistem que não existe um número oficial de vítimas no conflito.

Segundo os documentos, autoridades americanas não investigaram denúncias de abusos, torturas, estupros e outros crimes que teriam sido cometidos por policiais e soldados iraquianos, e tais oficiais tiveram permissão para continuar atuando sem qualquer punição.

O site da TV Al Jazeera relata que soldados americanos denunciaram a seus superiores as alegações de tortura em ao menos 1.300 ocasiões: “o detento estava vendado”; “apanhou nos braços e pernas com um objeto duro”; “socado no rosto e na cabeça”; “eletricidade foi usada em seus pés e genitais”; “foi sodomizado com uma garrafa d’água”.

Um dos relatos apresentados pela Al Jazeera é de uma denúncia de que “um detento foi espancado com uma chave de fenda, golpeado com cabos e mangueiras nos braços, costas e pernas, eletrecutado e sodomizado com uma mangueira”.

Trata-se da maior quebra de segurança desse tipo na história militar dos Estados Unidos. Em julho, o site publicou 76 mil documentos militares sobre a guerra do Afeganistão.

Os dados revelados pelo WikiLeaks indicam ainda que houve inúmeros casos de abusos contra prisioneiros. Presos tiveram os olhos vendados e os tornolezos e pulsos amarrados, e foram agredidos com chutes, socos e choques elétricos. Ao menos seis dos relatórios vazados apontam que os presos morreram após serem submetidos aos abusos.

ESTADOS UNIDOS

Mais cedo nesta sexta-feira, antes da divulgação dos documentos, o Pentágono disse que não esperava grandes surpresas, mas alertou que soldados americanos e iraquianos podem ser colocados em risco pelo vazamento das informações.

No Twitter, o WikiLeaks respondeu: “‘Nada novo para ELES obviamente”.

O coronel Dave Lapan disse a jornalistas que a equipe do Pentágono revisou os arquivos da Guerra do Iraque que acredita que o WikiLeaks tenha, cobrindo um período entre 2003 e 2010.

Ele descreveu-os como arquivos amplamente “de base”, que poderiam expor nomes de indivíduos iraquianos trabalhando com os EUA e dar informações a insurgentes iraquianos sobre as operações americanas, semelhante aos arquivos da Guerra do Afeganistão.

“Nossa preocupação é principalmente com a ameaça a indivíduos, a ameaça a nosso pessoal e nosso equipamento”, disse Lapan.

“Mas em termos dos tipos de incidentes que estão registrados nesses arquivos, onde iraquianos inocentes foram assassinados, onde há alegações de abuso de presos, todas essas coisas foram muito bem relatadas ao longo do tempo.”

A secretária americana de Estado, Hillary Clinton, afirmou nesta sexta-feira que condena o vazamento de qualquer documento que possa vir a colocar os americanos em perigo. Ela se recusou a discutir o conteúdo do material que deve ser divulgado pelo WikiLeaks.

“Mas tenho uma forte opinião de que devemos condenar nos termos mais claros o vazamento de qualquer informação por indivíduos ou organizações que coloquem as vidas dos americanos e de seus parceiros” em risco, afirmou à imprensa.

PREPARAÇÃO

Nos últimos dias, autoridades americanas e da Otan fizeram pronunciamentos públicos sobre supostos perigos que os vazamentos revelados pelo WikiLeaks podem causar às tropas internacionais estacionadas no Iraque e no Afeganistão.

Mais cedo, o próprio secretário-geral da Otan (aliança militar ocidental), Anders Fogh Rasmussen, fez advertências. “Tais vazamentos podem ter consequências muito sérias em termos de segurança para as pessoas afetadas, podem pôr em perigo a vida de soldados e de civis”, afirmou em Berlim.

Na segunda-feira (18), o Pentágono pediu que a imprensa não publique os documentos que vierem a ser revelados.

“A imprensa precisa ter cuidado. Não queremos que o WikiLeaks, como organização, ganhe credibilidade se meios com credibilidade divulgarem suas informações”, disse David Lapan, porta-voz da Departamento da Defesa americano.

As informações seriam publicadas em um momento delicado para o Iraque, onde os partidos políticos tentam formar um governo de coalizão e as forças de combate americanas completaram a retirada em agosto.

Os EUA mantêm ainda no Iraque cerca de 50 mil soldados, que até o fim de 2011 deverão deixar o país.

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