‘Brasil deve decidir se é pró-Irã ou pró-EUA’


Entre elogios a Lula e à emergência do Brasil, Shimon Peres cobra ação com base em ‘valores’; ‘Ahmadinejad não é um problema só para Israel’

Celso Ming ENVIADO ESPECIAL / JERUSALÉM – O Estado de S.Paulo

Incomodado com a aproximação entre o governo Luiz Inácio Lula da Silva e o Irã de Mahmoud Ahmadinejad, o presidente de Israel, Shimon Peres, afirmou que a diplomacia brasileira não pode se valer apenas de “puro poder” e deve se pautar também por “valores”. “É preciso fazer uma escolha. Não se pode ser pró-EUA e pró-Irã ao mesmo tempo”, resumiu Peres em entrevista ao “Estado”, às Organizações Globo e ao jornal Valor Econômico.

O ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1994 exortou o Brasil a levar a sério as ameaças de Ahmadinejad a Israel, assim como sua pregação contra o Holocausto. Peres, porém, não perdeu o tom conciliatório durante a entrevista, elogiando várias vezes “os grandiosos feitos do Brasil nos últimos anos”. “Nossa relação com o Brasil é muito intensa, muito boa. Desejamos continuar nesse caminho.”

Para ele, o mundo deve reconhecer a emergência de novas potências como Brasil, China e Índia. Do outro lado, os países em ascensão devem assumir suas responsabilidades diante das principais questões globais.

“A voz do Brasil deve ser ouvida”, defendeu Peres, mesmo quando o assunto é proliferação nuclear ou terrorismo global. “Mas cada um de nós deve fazer sua escolha. As ambições iranianas não são um problema apenas para Israel, são um problema para o mundo”, completou.

Segundo ele, Israel “não pode ser neutro”. “Somos um povo cujo fundamento é a moral – os Dez Mandamentos. Nossa política externa parte dos Dez Mandamentos. Não queremos ver o mundo governado por ditadores. Chega de Hitler, de Stalin, de Mussolini – nunca mais queremos vê-los.”

Peres disse que o presidente Lula assegurou a ele ter discutido nos bastidores com Ahmadinejad a retórica agressiva adotada pelo Irã. “Lula disse que perguntou ao iraniano “por que você ameaça destruir Israel? Por que você nega o Holocausto?” Portanto, o debate está aberto.”

Arsenais. O israelense disse que não critica Lula. “Mas um líder com a biografia dele deve concentrar forças. Eu, pragmático que sou, penso que o maior poder vem da força moral.”

Discretamente, Peres tentou contornar as críticas ao fato de Israel manter um arsenal atômico e se recusar a aderir ao Tratado de Não Proliferação Nuclear, mas exigir que a comunidade internacional imponha sanções ao Irã por seu programa nuclear. “Se a bomba está nas mãos de alguém responsável, é uma coisa. É preciso considerar quem tem a posse dela.”

Questionado sobre o crescente isolamento internacional de Israel, Peres afirmou que seu país é “um dos mais populares do mundo”. Ele enumerou os aliados de Israel – incluindo China e Índia – e disse que a maior parte dos habitantes do planeta apoia os israelenses.

O líder que, juntamente com Yitzhak Rabin, assinou em 1993 os Acordos de Camp David com o então líder da OLP, Yasser Arafat, também falou sobre a América Latina. Peres elogiou as críticas recentes do cubano Fidel Castro a Ahmadinejad e o reconhecimento do “sofrimento histórico do povo judeu”.

Peres disse que a convivência de árabes e judeus no Brasil é um exemplo para o mundo. “Eu me reuni com o Comitê Olímpico brasileiro e vi que nele havia judeus e árabes trabalhando juntos. Eu e o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, ficamos muito impressionados. Eu disse a Abbas: “Se eles conseguem, por que nós não?””

QUEM É

Shimon Peres – Atual presidente de Israel (cargo de chefia de Estado, mas não de governo) construiu sua carreira política no Partido Trabalhista ao lado líderes como os ex-premiês David Ben Gurion, Golda Meir e Yitzhak Rabin. Em 1993, assinou no jardim da Casa Branca o primeiro acordo de paz entre Israel e a Organização de Libertação da Palestina de Yasser Arafat – feito que lhe rendeu o Nobel da Paz de 1994. Em 2006, formou o Partido Kadima, com o então premiê, Ariel Sharon.



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