Moçambique: Crianças acham mulheres de pele clara “mais bonitas”, diz estudo


Agência Lusa

Cerca de 90 por cento das crianças moçambicanas consideram as mulheres de pele clara “mais bonitas” do que as de pele escura, refere um estudo realizado pelo psicólogo moçambicano Vera Cruz, em colaboração com a Universidade de Paris.

Para o estudo foram ouvidas 500 crianças, entre quatro e 11 anos, das escolas primárias 7 de Outubro e Filipe Samuel Magaia, na capital do país, e de Campoane, distrito de Boane, a mais de 40 quilómetros de Maputo.

Das crianças ouvidas, entre Maio e Junho deste ano, 258 são do sexo masculino e 242 são do sexo feminino. À pergunta sobre “qual destas três meninas achas que é a mais bonita?”, 88 por cento escolheram “a menina branca”, 25 por cento “a menina mista” e apenas 12 por cento a “menina negra”.

O que as crianças desconheciam é que os três retratos eram de uma mesma pessoa — uma estudante da Faculdade de Educação da Universidade Eduardo Mondlane -, cuja pele mista surgiu também a branco e a preto por manipulação num programa informático, disse à Agência Lusa em Maputo o autor do estudo.

“As três fotos representavam exactamente a mesma menina, vestida e penteada da mesma maneira. A única coisa que as diferenciava era a cor da pele”, sublinhou Vera Cruz.

O facto de os inquiridos serem crianças com idades entre os quatro e 11 anos leva aquele psicólogo a considerar que “as respostas eram sinceras, porque as crianças não mentem”.

Até porque se o estudo tivesse sido realizado em pessoas com idade superior a 11 anos, “o sentimento de auto-censura levaria a que dissessem que a mulher de cor negra é a mais bonita”.

“Repare que uma adolescente mais velha repreendeu uma mais nova que apontou o retrato da mulher branca, como a mais bonita, porque ambas são negras”, explicou Vera Cruz.

Para o psicólogo, a escolha da “menina branca” como a mais bonita reflecte também a percepção dominante entre os adultos, porque “a opinião das crianças não é senão o reflexo da opinião dos adultos”.

“De facto, ninguém nasce com uma opinião já feita. As preferências forjam-se através do contacto com a sociedade”, acrescentou.

A associação da cor branca a elementos como a paz, pureza e doçura e da preta como de algo triste e diabólico, entre outros veiculados pelas ideologias da dominação colonial, ajuda a esclarecer a preferência por uma cor em detrimento da outra, assinalou Vera Cruz.

Aquela vertente de análise dos factores que estão por detrás da preferência por esta ou aquela cor dá origem à chamada “teoria da integração de modelos dominantes”, que se contrapõe à “teoria biológica”, que explica a opção das cores “em função da aptidão da retina para reagir positivamente às cores claras, e reagir negativamente às escuras”, apontou.

Sobre ilações que se podem tirar dos resultados do estudo em relação às práticas de racismo no país, o psicólogo afirmou que “uma preferência não traduz necessariamente uma prática de racismo, porque a opção não sustenta necessariamente uma intenção de prejuízo em relação ao objecto preterido”.

“Mas se a preferência for associada a um preconceito, como a percepção de que pessoas desta cor estão habilitadas a ocupar esta ou aquela vaga, pode levar a uma prática discriminatória”, enfatiza o autor do estudo.

O estudo vai fazer parte de uma série de artigos científicos da revista da Associação Internacional de Psicologia Intercultural numa edição a ser lançada próximo ano no Brasil, durante um colóquio sobre questões raciais.

PMA.

Lusa/Fim

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